O sistema alimentar global entrou em 2026 sob uma pressão dupla e simultânea: de um lado, a guerra entre Estados Unidos e Irã fechou ou restringiu severamente, desde março, o Estreito de Ormuz — corredor marítimo por onde passa cerca de 30% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados, além de 20% do petróleo e 19% do gás natural comercializados no mundo. De outro, um Super El Niño em formação no Oceano Pacífico, com pico de intensidade projetado para 2027 e 70% de chance de se tornar o mais forte já registrado, ameaça as safras em diversas regiões produtoras. A combinação levou a consultoria Oxford Economics a projetar alta de 12% nos preços globais de alimentos em 2026 e mais 5% em 2027.
O impacto já aparece nos números: fertilizantes estão, em média, 22% mais caros neste ano, segundo o mesmo levantamento. Nos Estados Unidos, a área plantada de trigo atingiu o menor patamar em cerca de 150 anos — 32 milhões de acres —, reflexo direto do encarecimento de insumos essenciais à produção agrícola em escala global.
Como o corte no Estreito de Ormuz afeta a produção de comida
O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota de petróleo: é também um dos principais corredores logísticos para fertilizantes nitrogenados usados na agricultura em todo o mundo. Com o conflito entre EUA e Irã restringindo severamente essa passagem desde março de 2026, a oferta global de insumos agrícolas foi impactada de forma direta, encarecendo o custo de produção de alimentos em praticamente todas as cadeias que dependem de fertilizante importado — da soja ao trigo, passando por milho e por proteínas animais que dependem de ração à base de grãos.
Organizações como a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o J.P. Morgan, o Atlantic Council e o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) vêm monitorando o desdobramento da crise, que soma o choque geopolítico ao fator climático do Super El Niño — uma combinação que analistas já descrevem como um dos cenários mais desafiadores para a segurança alimentar global nos últimos anos.
O paradoxo brasileiro: exportador de comida, importador de insumo
O Brasil ocupa uma posição peculiar nesse cenário: é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, com Rússia, Belarus, Canadá, Arábia Saudita e Marrocos entre os principais fornecedores. Isso coloca o produtor brasileiro no meio do que analistas do setor chamam de “efeito tesoura”: ele se beneficia, em tese, de preços internacionais de alimentos mais altos ao vender sua produção, mas paga significativamente mais caro pelos insumos — fertilizante, principalmente — necessários para produzir essa mesma safra.
Soma-se a isso o fator climático: o Super El Niño em desenvolvimento tende a provocar chuvas intensas, enchentes e degradação da qualidade de grãos na região Sul do Brasil, enquanto o Norte e o Nordeste tendem a enfrentar secas mais rigorosas, e o Centro-Oeste e o Sudeste, chuvas irregulares — um padrão que, em eventos anteriores de El Niño de intensidade comparável, como o de 2015, já levou a quedas de quase 10% na produção nacional de grãos. Especialistas estimam ainda que o fator climático, isoladamente, pode adicionar quase 1 ponto percentual à inflação geral brasileira em 2026.
Reflexo para o Brasil e para o consumidor
Para o consumidor brasileiro, a combinação de fertilizante mais caro com risco climático elevado tende a se traduzir, ao longo de 2026 e 2027, em pressão adicional sobre os preços de alimentos no mercado interno — mesmo em um país que é, ele próprio, um grande produtor agrícola. Setores como a suinocultura e a avicultura, que dependem intensamente de ração à base de soja e milho, estão entre os mais expostos a esse tipo de choque de custo, por dependerem de grãos cujo próprio custo de produção já embute o insumo importado mais caro.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Para Paraíba e Pernambuco, o efeito desse cenário chega principalmente por dois canais. O primeiro é o custo de produção na cadeia agropecuária regional — que já é um dos motores do crescimento econômico projetado para a Paraíba em 2026 — potencialmente pressionado pelo encarecimento do fertilizante importado, embora o impacto específico sobre lavouras nordestinas dependa de quanto cada produtor já opera com insumo nacional ou já contratado a preços anteriores à alta. O segundo canal é o preço final de alimentos para o comércio varejista e para o consumidor da região, num cenário em que a inflação de alimentos tende a repercutir de forma parecida em todo o país. Vale registrar que essa conexão regional é uma inferência econômica a partir do cenário nacional descrito pelas fontes — nenhuma das reportagens consultadas traz um dado específico e isolado para o impacto em PB ou PE.
Perspectivas
Com o Estreito de Ormuz seguindo sob restrição e o Super El Niño ainda em fase de intensificação — com pico esperado apenas em 2027 —, o J.P. Morgan já sinaliza risco de uma crise mais ampla de abastecimento de alimentos a partir daquele ano. Isso sugere que o cenário de pressão sobre custos agrícolas e preços de alimentos, tanto no Brasil quanto globalmente, não deve se resolver no curto prazo, e tende a seguir como um dos temas centrais de acompanhamento para quem depende da cadeia de alimentos — do produtor rural ao varejo de supermercado.
Fontes
ND+ (08/09/2026), citando Oxford Economics, FAO, J.P. Morgan, Atlantic Council, USDA e o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos.

