Em pouco mais de duas semanas, os rebeldes houthis do Iêmen mudaram o equilíbrio de forças em uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. Entre 3 e 11 de setembro de 2026, o grupo apoiado pelo Irã tomou cerca de 2.100 milhas quadradas de território no oeste do país, capturou o histórico porto de Moca e a ilha de Perim (Mayun) — bem no meio do estreito de Bab el-Mandeb — e forçou a retirada de forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita. Na sequência, avançaram também sobre as ilhas Hanish, ampliando o controle sobre o litoral do Mar Vermelho.
A ofensiva é descrita por analistas como o maior avanço territorial dos houthis em anos e, na prática, o fim da frágil trégua que vigorava desde 2022 — devolvendo o Iêmen a uma guerra civil que já dura 12 anos. Segundo levantamento da AFP com múltiplas fontes, os combates da última semana deixaram mais de 500 mortos, a maioria combatentes. Já a Organização Internacional para Migrações (OIM), da ONU, contabilizou mais de 46 mil pessoas deslocadas nas províncias de Taiz e Al-Hodeidah, número que autoridades disseram estar subindo “a cada hora”; estimativas de outras agências humanitárias citadas por veículos internacionais chegam a mais de 100 mil deslocados desde o início da escalada.
Por que o estreito de Bab el-Mandeb importa
Bab el-Mandeb liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por ele, passam cerca de 12% do comércio mundial, além de 11% do petróleo transportado por via marítima e 8% do gás natural liquefeito global, segundo dados citados pela Al Jazeera. A importância do estreito cresceu ainda mais depois que o Irã passou a bloquear, desde fevereiro deste ano, boa parte do tráfego comercial pelo Estreito de Hormuz — por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo e gás natural do mundo. Com Hormuz praticamente inoperante para navegação comercial, Bab el-Mandeb se tornou a principal rota alternativa para o petróleo do Golfo, o que torna o controle houthi sobre a área ainda mais sensível.
O impacto sobre a navegação já era grande antes desta nova ofensiva: o volume de tráfego marítimo pelo Mar Vermelho caiu entre 50% e 55% desde 2023, quando os houthis começaram a atacar embarcações ligadas a Israel em solidariedade à Faixa de Gaza. Segundo a Al Jazeera, o Egito já havia perdido cerca de US$ 7 bilhões em receitas do Canal de Suez entre 2023 e 2024 — cerca de 60% de toda a arrecadação do canal —, com navios optando por rotas alternativas que contornam a África pelo Cabo da Boa Esperança, adicionando mais de 20 dias de viagem.
Petróleo acima de US$ 100 e ataques à infraestrutura saudita
A reação dos mercados de energia foi imediata. O petróleo Brent, que era negociado perto de US$ 100 no início de setembro, chegou a superar US$ 106 a US$ 108 por barril em meados do mês, patamar que não era visto desde meados de maio, segundo dados reunidos por veículos como CNBC e Energy Connects. Na sexta-feira, 11 de setembro, a Arábia Saudita confirmou o fechamento preventivo de seu oleoduto East-West depois de um ataque com drones — lançados, segundo o Ministério das Relações Exteriores saudita, a partir do Iraque —, que deixou uma coluna de fumaça de quase 100 km visível ao longo da rota do duto e provocou ferimentos em equipes de manutenção.
Um funcionário do Sanaa Center, centro de estudos independente sobre o Iêmen, avaliou que o controle houthi sobre o estreito permite ao grupo “transformar uma pressão intermitente sobre a navegação em uma ameaça sustentada, a um custo operacional muito mais baixo” — ou seja, menos ataques pontuais e mais controle territorial permanente sobre uma rota inteira.
Estados Unidos hesitam, Arábia Saudita pressiona
O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, ligou duas vezes para o presidente americano Donald Trump na semana passada pedindo ataques militares diretos contra os houthis, segundo reportagem da Axios replicada por Al Jazeera e NBC News. Trump recusou as duas vezes, embora tenha dito ao príncipe que “tudo vai dar muito certo”, sem detalhar qualquer compromisso militar concreto. Em vez de uma ofensiva direta, Washington enviou o almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central dos EUA (Centcom), a Riad para reuniões de coordenação, sinalizando apoio de inteligência e mira, mas não uma entrada direta no conflito.
A cautela americana tem explicações práticas: um relatório da fiscalização interna do Pentágono apontou que os primeiros quatro meses da guerra entre EUA/Israel e Irã custaram US$ 33 bilhões, sendo US$ 22 bilhões apenas em munições consumidas — o que indicaria estoques críticos esgotados. Também pesa o calendário político: uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que apenas 31% dos americanos apoiam ação militar contra o Irã, ante 37% em março, e as eleições de meio de mandato em novembro tornam qualquer novo front impopular. Diante da hesitação de Washington, a Arábia Saudita já reagiu diversificando alianças: assinou recentemente o Acordo de Defesa Conjunta de Meca com Paquistão e Turquia.
Uma relação indireta, mas real, com o Brasil
Não há, até o momento, nenhum efeito direto e confirmado da crise no Iêmen sobre a economia brasileira — mas existem canais plausíveis de contágio que vale explicar. O Brasil ainda importa parte do diesel que consome e tem preços de combustíveis referenciados, em alguma medida, à cotação internacional do petróleo tipo Brent. Uma alta persistente do barril acima de US$ 100 tende a pressionar a política de preços da Petrobras e, por tabela, o valor da gasolina e do diesel nas bombas brasileiras, além de poder repassar custos para o frete marítimo internacional usado por exportadores e importadores do país. Trata-se de uma inferência baseada em como o mercado global de petróleo historicamente reage a choques no Oriente Médio, não de um efeito já mensurado ou anunciado por autoridades brasileiras.
O que vem a seguir
Analistas ouvidos por veículos como Foreign Policy e The Conversation apontam que os próximos alvos prováveis dos houthis são a região petrolífera do leste do Iêmen e o porto de Hodeidah, ampliando ainda mais a pressão sobre o governo saudita-apoiado. Ao mesmo tempo, o avanço militar pode custar caro politicamente ao grupo dentro do próprio Iêmen, à medida que a população civil paga o preço em mortes e deslocamento. Por ora, o cenário mais provável é de escalada controlada: nem uma intervenção militar americana direta, que Trump resiste a autorizar, nem um recuo houthi, que perderia a alavancagem geopolítica recém-conquistada sobre uma das rotas mais valiosas do comércio internacional. Para o resto do mundo, o sinal é claro — com Hormuz já parcialmente bloqueado pelo Irã e agora Bab el-Mandeb sob controle houthi, duas das principais válvulas do petróleo mundial estão simultaneamente sob risco, um cenário que tende a manter os preços de energia pressionados e voláteis nos próximos meses.
Fontes:
Al Jazeera, 13/09/2026 — Red Sea nations watch as Houthis seize Bab al-Mandeb strait — https://www.aljazeera.com/economy/2026/9/13/red-sea-nations-watch-as-houthis-seize-bab-al-mandeb-strait
Al Jazeera, 18/09/2026 — As Houthis grab Bab al-Mandeb, US appears willing to watch from sidelines — https://www.aljazeera.com/news/2026/9/18/as-houthis-grab-bab-al-mandeb-us-appears-willing-to-watch-from-sidelines
The Times of Israel, 10/09/2026 — Yemen’s Houthis seize port city of Mocha, closing in on strategic Bab el-Mandeb Strait — https://www.timesofisrael.com/yemens-houthis-seize-port-city-of-mocha-closing-in-on-strategic-bab-el-mandeb-strait/
Foreign Policy, 10/09/2026 — Yemen’s Houthis Seize Mokha Port Near Bab el-Mandeb Strait — https://foreignpolicy.com/2026/09/10/houthis-yemen-mokha-port-red-sea-bab-el-mandeb-iran-saudi-arabia-strait-hormuz/
NBC News, 11/09/2026 — Iran-backed Houthis capture Yemen’s Red Sea coastline on Bab-el-Mandeb Strait — https://www.nbcnews.com/world/middle-east/houthis-control-bab-el-mandeb-yemen-red-sea-saudi-iran-war-oil-rcna597186
NPR, 18/09/2026 — What to know after a week of Houthi attacks that threaten Saudi oil — https://www.npr.org/2026/09/18/nx-s1-5973810/houthi-attacks-saudi-oil-world-markets
CNBC, 11/09/2026 — Mokha: Houthis seize Yemen port, raising threat to oil and shipping — https://www.cnbc.com/2026/09/11/iran-houthis-mokha-red-sea-yemen.html

