O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu nesta quarta-feira (16) a taxa básica de juros, a Selic, de 14% para 13,75% ao ano. É o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual no atual ciclo de flexibilização monetária, que já soma 1,25 ponto percentual de queda desde que teve início em 2026, depois de a taxa ter permanecido em 15% ao ano por cerca de dez meses, entre junho de 2025 e o começo deste ano.
A decisão já era amplamente precificada pelo mercado financeiro — pesquisas divulgadas nos dias anteriores à reunião indicavam mais de 90% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto. O que chamou atenção de analistas foi o tom do comunicado divulgado pelo comitê, mais cauteloso do que o das reuniões anteriores.
O que diz o comunicado do Copom
No texto que acompanha a decisão, o Copom afirmou que “o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio” e defendeu “cautela por parte de países emergentes” diante desse cenário. Sobre a economia doméstica, o comitê descreveu um mercado de trabalho “aquecido” e uma inflação “abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta” perseguida pelo Banco Central.
Entre os riscos citados para a condução da política monetária nos próximos meses estão o preço do petróleo acima de US$ 100 no mercado internacional, os efeitos do fenômeno climático El Niño sobre a oferta de alimentos, a resistência dos preços de serviços e a incerteza fiscal associada ao calendário eleitoral — 2026 é ano de eleição presidencial no Brasil.
Contexto: inflação em desaceleração, atividade perdendo fôlego
O corte foi sustentado por um quadro de inflação mais comportada. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, com o índice acumulando alta de 4,22% em 12 meses. O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central em 14 de setembro, trouxe nova redução na projeção do mercado para o IPCA de 2026, de 5% para 4,90%, com a estimativa para 2027 em 4,30%.
Do lado da atividade econômica, os sinais são de desaceleração: o IBC-Br, indicador que funciona como uma prévia do PIB, recuou 0,2% em julho na série com ajuste sazonal. As projeções de mercado para o crescimento também foram revisadas para baixo, com o PIB de 2026 estimado agora em 1,89% e o de 2027 em 1,45%.
Histórico do ciclo de juros
A Selic chegou a 15% ao ano em meados de 2025, patamar em que permaneceu por cerca de dez meses em um esforço do Banco Central para conter a inflação em um contexto de forte atividade econômica e pressão de preços. A partir de 2026, com a inflação já em trajetória de queda, o Copom passou a reduzir os juros de forma gradual e sequencial, sempre em passos de 0,25 ponto percentual, até chegar aos atuais 13,75%.
O que dizem os economistas
O mercado está dividido sobre o que vem a seguir. Ricardo Trevisan, CEO da gestora Gravus Capital, defende que o Banco Central deveria fazer uma pausa no ciclo de cortes, citando a inflação ainda em 4,22% ao ano — acima da meta de 3% perseguida pelo regime de metas —, a trajetória de alta de juros nos Estados Unidos e a incerteza ligada ao processo eleitoral brasileiro como fatores de risco.
Em direção oposta, a casa de análise ASA avalia que a postura do Copom é “compatível com a continuidade gradual do ciclo” e mantém a projeção de novos cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões de novembro e dezembro. Uma pesquisa do BTG Pactual com 70 agentes do mercado financeiro mostrou que 74% dos consultados esperam pelo menos mais uma redução da Selic ainda em 2026, enquanto 23% projetam manutenção da taxa em 13,75% até o fim do ano.
Impacto no crédito não é imediato
Especialistas consultados por veículos econômicos alertam que a redução da Selic não se traduz automaticamente em juros mais baixos no crédito ao consumidor e às empresas. Como resume um trecho de análise especializada, “a redução de 0,25 ponto percentual não chega integralmente nem imediatamente à ponta”: o efeito passa primeiro pelas curvas de custo e pelo funding dos bancos, depois pelas operações das empresas, e só então pelo bolso do consumidor final — um processo que pode levar de seis a 18 meses para se completar, já que cada instituição financeira define seu próprio ritmo de repasse.
No mercado imobiliário, a expectativa é de que juros menores reduzam gradualmente as barreiras para financiamentos de longo prazo, mas o efeito depende da manutenção de uma trajetória consistente de queda da Selic, e não de um corte isolado.
O que isso significa para Pernambuco e Paraíba
A Selic é a referência para praticamente todo o crédito bancário do país, e sua trajetória de queda tende a afetar, com defasagem, o custo de financiamentos para consumidores e pequenas e médias empresas em todos os estados — incluindo Pernambuco e Paraíba. É importante frisar que esta é uma inferência baseada no funcionamento geral da política monetária, já que a reportagem consultada para esta matéria não trouxe dados específicos sobre o impacto regional no Nordeste.
Vale registrar, no mesmo contexto de política econômica da semana, que o governo federal também anunciou reajuste do Bolsa Família, com o valor mínimo do benefício subindo de R$ 600 para R$ 691 e pagamento médio de R$ 777, com pagamentos a partir de 19 de outubro e impacto orçamentário estimado em R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027. Como o Nordeste concentra uma das maiores proporções de beneficiários do programa no país, esse reajuste tende a ter peso proporcionalmente maior sobre a renda das famílias em Pernambuco e na Paraíba do que em regiões mais ricas — novamente, uma leitura inferida a partir do peso histórico do programa na região, e não um dado regionalizado divulgado nesta semana.
Perspectivas
Para as próximas reuniões do Copom, marcadas para novembro e dezembro, o mercado aguarda sinalizações mais claras sobre se o ciclo de cortes será encerrado em 13,75% ou se o Banco Central terá espaço para reduzir ainda mais os juros até o fim de 2026. A decisão dependerá da evolução dos riscos externos — como o preço do petróleo e a política monetária americana — e do comportamento da inflação doméstica nos próximos meses, em um cenário adicionalmente marcado pela proximidade das eleições presidenciais.
Conclusão
O corte da Selic para 13,75% confirma a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário iniciado neste ano, mas o tom cauteloso do comunicado do Copom mostra que o Banco Central não está disposto a acelerar o ritmo dos cortes enquanto persistirem incertezas externas e a inflação não convergir de forma mais consistente para a meta. Para o consumidor e para as empresas — inclusive no Nordeste —, o recado prático é que juros mais baixos estão a caminho, mas de forma gradual, e não devem se traduzir em alívio imediato no custo do crédito.
Fontes: Poder360, “Copom reduz Selic para 13,75% ao ano”, 16/09/2026; O Povo, “Copom faz quinto corte de 0,25 ponto percentual e Selic vai a 13,75%”, 17/09/2026; Seu Dinheiro, “Juros cada vez menores: Copom corta Selic para 13,75% e não sinaliza próximos passos”, setembro de 2026; ND Mais, “Redução da taxa Selic para 13,75% impacta crédito e mercado imobiliário”, setembro de 2026; Mercado Hoje (O Tempo/UAI), “Notícias Hoje 17-09-2026: confira os fatos importantes do dia”, 17/09/2026.

