Um prédio residencial de seis andares desabou na madrugada de quarta-feira (16) na Cidade de Gaza, matando ao menos 21 pessoas enquanto dormiam e deixando dezenas de moradores soterrados sob os escombros. O caso, ocorrido no edifício conhecido como al-Saada, reacendeu o alerta sobre a situação de milhares de construções na Faixa de Gaza que permanecem estruturalmente comprometidas quase um ano depois do cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, o desabamento matou pelo menos 21 pessoas, entre elas crianças e mulheres — a Al Jazeera, citando o Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, registrou 12 crianças e cinco mulheres entre as vítimas, enquanto outras agências de imprensa internacionais informaram 11 crianças. Catorze pessoas ficaram feridas. O número de desaparecidos varia conforme a fonte: o Comitê de Gaza para Recebimento e Recuperação de Corpos falou em mais de 60 pessoas ainda não localizadas na tarde de quarta-feira, enquanto a Al Jazeera citou estimativas de até 100 pessoas sob os escombros.
Um prédio já enfraquecido pela guerra
De acordo com o Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, o edifício al-Saada, que tinha quatro apartamentos por andar, já havia sido atingido diretamente durante a guerra, o que comprometeu sua integridade estrutural e, segundo as autoridades locais, foi a causa determinante do colapso. Ainda assim, famílias deslocadas ocupavam o imóvel como abrigo de última instância, diante da falta de alternativas.
O porta-voz da Defesa Civil de Gaza, Mahmoud Basal, afirmou que as equipes seguiam trabalhando para recuperar corpos e localizar desaparecidos. O prefeito da Cidade de Gaza, Yahya Al Sarraj, disse que a prefeitura e a própria Defesa Civil estavam “paralisadas” pela falta de equipamentos adequados para operações de resgate em estruturas de grande porte. O coordenador humanitário da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Ramiz Alakbarov, declarou que “vidas ainda podem ser salvas, cada minuto conta”, cobrando agilidade nas buscas.
Moradores da região relataram o desespero de viver sob risco constante. “O que obriga as pessoas a viver nesses lugares é que não há abrigo além deste”, disse o morador deslocado Alam Zakout à agência AP. Um parente de vítimas, identificado como Um Mohammad Adas, descreveu a situação das famílias sobreviventes: “Agora, eles estão desabrigados nas ruas e sem absolutamente nada”. Já o morador Ahmad Arafat resumiu o dilema de milhares de famílias: “Não temos dinheiro para ir para outro lugar”. Shaina Low, do Conselho Norueguês para Refugiados, resumiu o cálculo de risco feito por quem ainda ocupa prédios danificados: “As pessoas estão escolhendo ficar em edifícios perigosos porque a ideia de viver em uma tenda é pior”.
Um cessar-fogo que não trouxe reconstrução
O acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas, selado em outubro de 2025 dentro de um plano de 20 pontos negociado com mediação internacional, reduziu a intensidade dos combates, mas não interrompeu por completo a violência nem destravou a reconstrução da Faixa de Gaza. Segundo autoridades sanitárias locais, ataques israelenses mataram pelo menos 1.375 pessoas desde que o cessar-fogo entrou em vigor, em meio a acusações mútuas de violação do acordo. Israel mantém a posição de que não autorizará a entrada em larga escala de materiais de construção e a reconstrução ampla de Gaza até que o Hamas se desarme — uma condição que o grupo rejeita, travando as negociações sobre a segunda fase do plano.
Essa paralisia tem um custo humano direto: apenas na primeira semana de setembro, outros cinco abrigos entraram em colapso na Faixa de Gaza, segundo o Ministério de Obras Públicas da própria administração local, que estima em mais de 2 mil o número de edificações sob risco iminente de desabamento em todo o território.
Uma crise habitacional sem fim à vista
Os números mostram a dimensão do problema. Segundo levantamentos citados por veículos internacionais, cerca de 76% das unidades residenciais de Gaza foram danificadas ou destruídas ao longo de quase três anos de guerra, atingindo aproximadamente 320 mil residências e afetando 1,7 milhão dos 2,1 milhões de habitantes do território. Entre os moradores que permanecem em suas antigas casas, 72% dos entrevistados em pesquisas de campo vivem em imóveis danificados; em pelo menos um bairro da Cidade de Gaza, 22% das construções apresentam risco iminente de colapso. Mais de 1 milhão de pessoas seguem sem abrigo adequado, distribuídas entre tendas, prédios comprometidos e acampamentos improvisados.
Organizações humanitárias apontam que as restrições israelenses à entrada de materiais de construção e de equipamentos pesados de resgate agravam tanto o risco de novos desabamentos quanto a capacidade de resposta das equipes de emergência quando eles ocorrem — como ficou evidente nas buscas manuais realizadas após o colapso do al-Saada, sem maquinário pesado disponível.
Consequências e o que vem a seguir
O episódio deve pressionar novamente a comunidade internacional, incluindo mediadores do cessar-fogo, a cobrar avanços concretos na fase de reconstrução do acordo, especialmente às vésperas da abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde a situação humanitária em Gaza volta a integrar a agenda central dos debates. Para especialistas em ajuda humanitária, sem o destravamento da entrada de materiais de construção e maquinário pesado, episódios como o do al-Saada tendem a se repetir, dado o número de prédios já classificados como estruturalmente inseguros.
Para a população de Gaza, o desabamento reforça um dilema que já dura quase um ano de cessar-fogo formal: a escolha entre permanecer em construções que podem ruir a qualquer momento ou viver a céu aberto, sem nenhuma proteção. O caso não tem relação direta e imediata com a economia brasileira, mas integra o quadro mais amplo de instabilidade no Oriente Médio que segue sendo acompanhado por analistas de risco geopolítico e mercados de commodities, dada a sensibilidade histórica do petróleo a crises na região.
A guerra entre Israel e o Hamas, iniciada em outubro de 2023, já matou mais de 73.821 palestinos segundo o Ministério da Saúde de Gaza, com mulheres e crianças representando cerca de metade desse total — números que autoridades locais e organizações internacionais continuam atualizando à medida que corpos são recuperados de escombros como os do prédio al-Saada.
Fontes: Al Jazeera (16/09/2026); The Associated Press, via Local10/News4Jax (18/09/2026); CBC News (18/09/2026); Council on Foreign Relations, guia sobre o plano de paz de 20 pontos para Gaza.

