Uma lei federal sancionada há três dias e a fala pública de um executivo de uma das maiores distribuidoras de energia do país se cruzaram nesta semana para colocar o Nordeste — e, dentro dele, Pernambuco e a Paraíba — no centro de um debate que vai determinar onde o Brasil vai construir seus data centers nos próximos anos: o de fonte de energia. De um lado, o governo federal decidiu, por lei, que esses empreendimentos precisam ser abastecidos por energia renovável ou por fontes de ‘baixa emissão’ — categoria ainda indefinida. De outro, empresas do setor de gás natural, caso da Energisa, defendem que só a combinação de renováveis com gás garante a chamada ‘energia firme’, despachável a qualquer hora, que um data center de grande porte exige para funcionar 24 horas por dia.
A lei que reacendeu a disputa
Em 15 de setembro de 2026, o presidente da República sancionou a Lei nº 15.504/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (ReData), com incentivos fiscais para atrair a instalação desses centros de processamento no país. O texto determina que a demanda elétrica dos empreendimentos beneficiados seja suprida por fontes renováveis ou de ‘baixa emissão’, mas não define quais tecnologias se enquadram nessa segunda categoria — decisão que ficou para um decreto regulamentador ainda em elaboração. Segundo reportagens do Poder360 e da consultoria jurídica BMA Advogados, o Ministério da Fazenda tenta restringir esse conceito e, na prática, excluir o gás natural das opções de abastecimento, enquanto o Ministério de Minas e Energia (MME) defende manter o combustível entre as alternativas permitidas, argumentando que ele oferece previsibilidade a investidores nacionais e estrangeiros. Um senador já sinalizou a possibilidade de apresentar um decreto legislativo para suspender a regulamentação caso o gás fique de fora.
Energisa reforça a aposta em gás e data centers
É nesse contexto que a Energisa voltou a público defender sua estratégia. Em entrevista ao Brazil Journal publicada em 16 de setembro, Fabio Bertollo, presidente do negócio de gás do grupo, afirmou que a distribuição de gás natural é ‘um business que tem semelhança com a distribuição de eletricidade e um potencial enorme’, com ‘potencial de crescimento orgânico exponencial’. Sobre os leilões de energia de reserva para térmicas a gás — um dos vetores que a empresa aposta para viabilizar o abastecimento de data centers —, Bertollo disse acreditar que ‘esse modelo veio para ficar’. Segundo a reportagem, um leilão realizado em março de 2026 para contratação de usinas térmicas deve gerar R$ 367 milhões em valor presente líquido para projetos ligados aos territórios da ES Gás e da Norgás, subsidiárias de gás do grupo. No primeiro semestre de 2026, o Ebitda do negócio de gás da Energisa cresceu 60% na comparação anual, para R$ 109 milhões, ritmo bem acima do crescimento de 1% do holding consolidado.
A defesa do gás como complemento às renováveis não é nova na companhia. Em entrevista ao portal eixos.com.br, em setembro de 2025, Débora Oliver, então CEO da Energisa Distribuição de Gás, já argumentava que, ‘se continuarmos só com a bandeira renovável, provavelmente o investidor que entende tecnicamente o risco não vai investir’ em data centers no país — daí a necessidade de gás como lastro de confiabilidade. Já em julho de 2025, Paulo Homem, diretor institucional regulatório da mesma área da empresa, havia dito que um estudo encomendado pela Norgás ao instituto Pensar Energia ‘confirma o que já suspeitávamos: é realmente necessário ter fontes confiáveis para garantir a operação dos data centers’.
Por que o Nordeste entra na conta
O estudo do Pensar Energia, divulgado pela Energisa, aponta o Nordeste como a região com melhores condições naturais para se tornar um polo digital do país, por reunir ventos constantes, alta irradiação solar e capacidade renovável instalada — mas hoje mais de 20% da geração renovável da região é desperdiçada por falta de demanda local, segundo a empresa. Ao mesmo tempo, mais de 97% da população nordestina ainda não tem acesso a redes de gás canalizado, uma lacuna de infraestrutura que a Energisa, por meio da Norgás, diz estar endereçando com mais de R$ 200 milhões investidos na região só em 2025. A companhia afirma manter dois projetos-piloto em operação no Nordeste com operadoras interessadas em se instalar na região, usando energia produzida a gás para testar a confiabilidade do fornecimento.
O que isso significa para Pernambuco
A Norgás, braço de gás natural da Energisa (adquirido em 51% por R$ 879 milhões em 2023, na mesma leva de expansão que incluiu a compra da ES Gás por R$ 1,42 bilhão), atua em Alagoas, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Em Pernambuco, a distribuição de gás canalizado é feita pela Copergás, que integra esse grupo de ativos. A companhia pernambucana tem um plano de longo prazo (ELP) para o período 2023-2028 que prevê R$ 595,9 milhões em investimentos, com meta de ampliar sua rede de distribuição de 1.100 km para 1.850 km e o número de municípios atendidos de 33 para 45, segundo dados da própria Copergás. É esse ativo — e não um projeto de data center já anunciado e localizado no estado — que credencia Pernambuco como uma das praças onde a estratégia de ‘gás como energia firme para data centers’ da Energisa pode, no futuro, ganhar um projeto concreto. Até a publicação desta reportagem, nenhuma fonte consultada confirmou um empreendimento de data center especificamente definido para território pernambucano; a menção ao estado se dá pela presença da Copergás/Norgás na região e pelo enquadramento de Pernambuco entre os estados nordestinos citados no estudo do Pensar Energia — trata-se, portanto, de um potencial regional, não de um anúncio de projeto específico. Vale registrar que Pernambuco também vive, em paralelo e sem relação direta confirmada com a movimentação da Energisa, um momento de expansão portuária e industrial em Suape: o complexo recuperou 55 hectares de área com acesso direto ao mar após decisão arbitral favorável em contrato com o estaleiro Vard Promar, e a movimentação de cargas no porto cresceu 21,3% entre janeiro e julho de 2026 ante igual período do ano anterior, segundo o Movimento Econômico.
O que isso significa para a Paraíba
Na Paraíba, a conexão direta e confirmada com o movimento da Energisa é outra: a distribuidora de energia elétrica do estado, a Energisa Paraíba (antiga Saelpa, privatizada em 2000), é uma das nove distribuidoras do grupo e deve receber R$ 530 milhões em investimentos apenas em 2026, segundo o plano atualizado que a companhia apresentou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Esse valor integra o total de R$ 7,09 bilhões que a Energisa planeja investir no país neste ano — R$ 6,28 bilhões em ativos próprios das subsidiárias e R$ 807,8 milhões em obrigações especiais ligadas a contas setoriais como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). É importante, porém, não confundir os dois fios da notícia: esse aporte de R$ 530 milhões é para a rede elétrica, não para gás natural — a distribuição de gás canalizado na Paraíba é operada pela estatal PBGÁS, fora do grupo Energisa, e nenhuma fonte consultada indicou que a Norgás opere ou planeje operar diretamente no estado. Ou seja, a Paraíba está na rota bilionária de investimentos da Energisa, mas, pelas informações disponíveis até esta reportagem, não integra a frente específica de gás natural e data centers que a empresa promove no Nordeste — qualquer efeito da estratégia de data centers sobre o estado seria, hoje, indireto e não confirmado pelas fontes.
Consequências para empresas e consumidores
Para empresas de tecnologia e operadoras de nuvem que avaliam onde instalar infraestrutura no Brasil, a definição regulatória do ReData — se o gás natural poderá ou não contar como fonte elegível — deve pesar diretamente na escolha de estados e regiões, já que fornecimento de energia firme é um dos principais critérios de viabilidade para um data center de grande porte. Para os consumidores de energia elétrica e gás em Pernambuco e na Paraíba, o principal efeito concreto por ora é indireto: mais investimento em redes de distribuição tende a significar, ao longo dos anos, expansão de cobertura, menos perdas técnicas e, em tese, maior capacidade de atrair novas cargas industriais — sem que isso configure, hoje, uma promessa de tarifa mais baixa ou de um data center específico chegando a qualquer um dos dois estados.
Perspectivas
O desfecho mais aguardado no curto prazo é o decreto que vai regulamentar o ReData e definir, de uma vez, se o gás natural entra ou não na lista de fontes aceitas para abastecer data centers incentivados. Esse texto, ainda em disputa entre Fazenda e MME, deve ser o próximo capítulo que trará clareza sobre se a estratégia de gás da Energisa no Nordeste vai efetivamente destravar novos projetos de data center na região — e, com isso, se estados como Pernambuco, onde o grupo já tem ativos de gás via Copergás/Norgás, vão sair na frente na disputa por esses investimentos.
Conclusão
A confluência entre a nova lei federal e a movimentação de uma companhia com presença consolidada tanto em energia elétrica na Paraíba quanto em gás natural em Pernambuco reforça algo que já vinha se desenhando: o Nordeste tem argumentos concretos — infraestrutura renovável ociosa, rede de gás em expansão e planos bilionários de investimento — para disputar a corrida por data centers no Brasil. Mas, até aqui, os fatos confirmados mostram um cenário de potencial e de investimento em infraestrutura de base, não de projetos fechados. Pernambuco está mais próximo da frente de gás natural via Copergás/Norgás; a Paraíba, por ora, está no radar pelo investimento elétrico da Energisa Paraíba, sem vínculo confirmado com a frente de data centers. A regulamentação do ReData, nas próximas semanas, deve ser o fator que decide se esse potencial vira projeto.
Fontes:
Brazil Journal, ‘Energisa quer ser multi-utility – e vê gatilhos para crescer no gás’, 16 de setembro de 2026 — https://braziljournal.com/energisa-quer-ser-multi-utility-e-ve-gatilhos-para-crescer-no-gas/ | Paraíba Business, ‘Energisa aposta em termelétricas e data centers para expandir negócio de gás natural’, 17-18 de setembro de 2026 — https://paraibabusiness.com.br/energisa-aposta-em-termeletricas-e-data-centers-para-expandir-negocio-de-gas-natural/ | Poder360, ‘Ministério atua para que Redata permita o uso de gás natural’ — https://www.poder360.com.br/poder-governo/ministerio-atua-para-que-redata-permita-o-uso-de-gas-natural/ | BMA Advogados, ‘Redata: regime especial de tributação para data centers é sancionado e MME sinaliza espaço para o gás natural’ — https://www.bmalaw.com.br/conteudo/energia/informativos-e-newsletters/redata-pl-2782026-senado-aprova-regime-especial-de-tributacao-para-data-centers-e-mme-sinaliza-espaco-para-o-gas-natural | Suno Notícias, ‘Energisa (ENGI11) projeta R$ 7,09 bilhões em investimentos em 2026’, 19 de fevereiro de 2026 — https://www.suno.com.br/noticias/energisa-engi11-projeta-7-bi-investimentos-2026-go/ | CNN Brasil, ‘Energisa prevê investir R$ 7,09 bilhões em 2026’, 19 de fevereiro de 2026 — https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/energisa-preve-investir-r-709-bilhoes-em-2026/ | Cenário Energia, ‘Energisa Projeta R$ 7,09 Bilhões Em Investimentos Em 2026 Com Foco Em Distribuição De Energia’ — https://cenarioenergia.com.br/2026/02/19/energisa-projeta-r-709-bilhoes-em-investimentos-em-2026-com-foco-em-distribuicao-de-energia/ | Eixos, ‘Renováveis, sem a estabilidade do gás, não atrairão data centers, diz Energisa’, setembro de 2025 — https://eixos.com.br/videos-e-podcasts/renovaveis-sem-a-estabilidade-do-gas-nao-atrairao-data-centers-diz-energisa/ | Click Petróleo e Gás, sobre estudo Pensar Energia/Norgás, 31 de julho de 2025 — https://en.clickpetroleoegas.com.br/energisa-aponta-gas-natural-como-solucao-energetica-para-data-centers-no-brasil-ama01/ | Copergás, ‘Distribuição’ (dados do Plano de Longo Prazo 2023-2028) — https://copergas.com.br/sobre-nos/distribuicao/ | Movimento Econômico, ‘Suape retoma área de 55 hectares e abre espaço para novos investimentos em PE’, 26 de agosto de 2026 — https://movimentoeconomico.com.br/economia/portos/2026/08/26/suape-retoma-area-de-55-hectares-e-abre-espaco-para-novos-investimentos-em-pe/

