A Polícia Federal deflagrou na manhã desta segunda-feira (14) a terceira fase da Operação Transparência, mirando o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e sua mulher, Valéria Rodrigues Linhares, sob suspeita de integrarem um esquema de tráfico de influência voltado a tribunais superiores. Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo, todos autorizados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
O que apura a investigação
Segundo a Polícia Federal, o inquérito apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A apuração é um desdobramento de uma investigação aberta em dezembro de 2025 para examinar irregularidades na destinação de emendas parlamentares. De acordo com os investigadores, integrantes do grupo teriam negociado com terceiros o pagamento de valores elevados condicionados ao resultado de processos judiciais, sob a alegação de que seria possível influenciar as decisões.
A corporação fez questão de delimitar o alcance da apuração até o momento: não há elementos que indiquem participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados, segundo nota divulgada pela PF. Ou seja, a suspeita recai sobre a promessa de influência feita pelo grupo político, e não, neste estágio, sobre magistrados.
Quem é o deputado alvo da operação
Cezinha de Madureira, nome político de Antônio Cezar Correia Freire, nasceu em 1973 em Ipiaú (BA) e construiu carreira como jornalista, radialista e pastor da Assembleia de Deus desde 2012. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014 e migrou para a Câmara dos Deputados em 2018, cumprindo hoje seu segundo mandato consecutivo como federal. No Legislativo, já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (2021), ocupa a vice-presidência do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, preside a Comissão de Viação e Transportes e foi nomeado secretário de Transparência da própria Câmara em abril de 2025 — cargo cujo nome contrasta com o título dado pela PF à operação que hoje o investiga.
O patrimônio declarado pelo parlamentar também chamou atenção dos investigadores: saltou de cerca de R$ 602 mil em 2022 para mais de R$ 3 milhões na declaração mais recente, em 2026. O caso já vinha sendo monitorado pela corporação: em agosto, a PF apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da mulher do deputado, episódio tratado pelos investigadores como um dos antecedentes que embasaram os novos mandados.
A conexão com o caso Banco Master
O elemento que projetou o caso para além da política paulista é a ligação do deputado com a crise do Banco Master, um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. Segundo apurado pelas reportagens, Cezinha de Madureira articulou, em março de 2025, um encontro entre o ministro do STF André Mendonça e o banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, em meio a uma ação relacionada a créditos de precatórios.
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após constatação de grave deterioração econômico-financeira e infrações às normas do sistema financeiro. A instituição, controlada por Vorcaro, havia crescido rapidamente com a emissão de cerca de R$ 50 bilhões em CDBs vendidos com promessas de rentabilidade acima da média de mercado e lastro no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas com ativos de baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas em dificuldade. A liquidação resultou no maior ressarcimento da história do FGC, estimado em cerca de R$ 41 bilhões para aproximadamente 1,6 milhão de credores. Vorcaro chegou a ser preso em novembro de 2025, no âmbito da Operação Compliance Zero, e voltou a ser detido em 4 de março de 2026.
É justamente esse cruzamento — um parlamentar com trânsito junto a um ministro do STF, agora investigado por tentar monetizar promessas de influência sobre decisões judiciais, tendo como pano de fundo um banqueiro que movimentou dezenas de bilhões de reais antes de ver sua instituição liquidada — que deu à Operação Transparência repercussão nacional muito além do universo da bancada evangélica na Câmara.
Repercussão e o que diz a defesa
A defesa de Cezinha de Madureira negou qualquer irregularidade e classificou a operação como sujeita a uma leitura de circunstância política ou eleitoral, pedindo que o caso seja conduzido com isenção. Segundo os advogados, o deputado está colaborando com as investigações e mantém confiança de que os fatos serão esclarecidos, demonstrando que nenhuma irregularidade foi cometida.
A operação ocorreu um dia antes de um julgamento no STF, o que amplificou a repercussão política do episódio em Brasília. Auxiliares da Câmara e colegas de bancada ainda não se manifestaram oficialmente sobre eventual afastamento do deputado de suas funções, incluindo a vice-presidência do Conselho de Ética — órgão que, em tese, poderia vir a examinar sua própria conduta caso a Procuradoria-Geral da República solicite abertura de processo na Casa.
Por que o caso importa
Para além do noticiário político do dia, a Operação Transparência expõe um ponto sensível do sistema de Justiça brasileiro: a possibilidade de que intermediários com acesso a autoridades ofereçam, a peso de dinheiro, a promessa de influenciar decisões em tribunais superiores — mesmo que, como frisou a própria PF, não haja até aqui indício de que magistrados tenham participado do esquema. A investigação também reacende o debate sobre a fiscalização de emendas parlamentares, ponto de partida do inquérito aberto ainda em dezembro de 2025, e sobre os limites do trânsito de parlamentares e lobistas junto ao Judiciário.
Os próximos passos dependem do material apreendido nos quatro endereços vasculhados nesta segunda-feira e de eventuais desdobramentos que a PF venha a levar ao STF, já que deputados federais só podem ser processados criminalmente com autorização prévia da Câmara em determinadas hipóteses, mas seguem sob jurisdição do Supremo enquanto durar o mandato. Até a conclusão desta reportagem, não havia decisão sobre afastamento cautelar do deputado nem data prevista para novas fases da operação.
Fontes: Correio Braziliense (14/09/2026), Gazeta do Povo (14/09/2026), Brasil de Fato (14/09/2026), SBT News (14/09/2026) e CNN Brasil (reportagens sobre a liquidação do Banco Master e a prisão de Daniel Vorcaro).

