Edificação ligada a um dos personagens mais importantes da história política da Paraíba atravessou décadas de abandono e agora volta a receber atenção do poder público em Pitimbu
No alto de uma área rural do Assentamento Sede Velha do Abiaí, em Pitimbu, no Litoral Sul da Paraíba, uma construção antiga resiste ao tempo. Cercado pela vegetação e marcado pela deterioração, o Casarão da Fazenda Sede Velha do Abiaí é mais do que uma casa antiga. É um pedaço material de uma história que atravessa o Império, a política paraibana e a formação da própria região.
A edificação está inserida em uma paisagem que ajuda a entender sua importância. Construída em uma parte elevada do terreno, a casa permitia uma ampla visão da antiga propriedade. Registros ambientais e históricos descrevem o imóvel como uma residência rural de grandes dimensões, com varanda, colunas e janelas arqueadas, características que ainda podem ser percebidas nas estruturas que sobreviveram.
Hoje, porém, o cenário é outro. O casarão, durante décadas abandonado, chegou a apresentar condições consideradas péssimas de conservação. A vegetação avançou sobre a construção, partes da estrutura se deterioraram e aquilo que um dia representou poder, riqueza e influência passou a conviver com o risco de desaparecer.
A casa de um barão
A história do casarão se confunde com a de Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, o Barão do Abiaí.
Nascido na propriedade Abiaí, então ligada à freguesia de Alhandra, Silvino foi advogado, jornalista e político. Formou-se em Direito pela Faculdade de Olinda, em 1853, e construiu uma carreira que o levou a ocupar diferentes funções públicas e a exercer forte influência na política do Império.
Ele presidiu a Província da Paraíba em diferentes períodos e também esteve à frente das administrações provinciais do Rio Grande do Norte, Alagoas e Maranhão. Na Paraíba, foi ainda deputado provincial, inspetor da Alfândega e figura de destaque do Partido Conservador. Também esteve ligado ao Jornal da Parahyba, publicação de orientação conservadora.
O título de Barão do Abiaí foi concedido por decreto imperial em 1888, em referência justamente à propriedade onde nasceu. A casa, portanto, carrega no próprio nome a memória do homem que chegou a ocupar alguns dos postos mais importantes da administração imperial no Norte do Brasil.
É uma história curiosa: o homem que emprestou seu nome ao casarão nasceu ali, ganhou prestígio no Império e tornou-se uma das figuras políticas mais importantes da Paraíba. Décadas depois, o lugar onde sua trajetória começou passou a lutar contra o abandono.
Uma construção que também foi lugar de gente
O casarão não sobrevive apenas como lembrança de uma elite rural. Ao longo do tempo, o espaço teve outros usos e se incorporou à memória das comunidades do entorno.
Relatos sobre a antiga propriedade apontam que a edificação chegou a ser utilizada como escola, ampliando o significado daquele espaço para além da figura do barão. A casa que um dia esteve associada à administração de uma grande propriedade também se tornou lugar de aprendizado e convivência.
É justamente essa dimensão humana que torna a preservação ainda mais importante. Patrimônio histórico não é apenas parede, telhado, porta ou janela. É também a memória das pessoas que passaram por esses espaços.
O abandono e a ruína
Durante anos, o casarão apareceu em registros e relatos como um patrimônio abandonado de Pitimbu. Publicações sobre o município já descreviam a construção como uma das referências históricas da região de Sede Velha, mas também chamavam atenção para seu estado de conservação.
A deterioração não é recente. Estudos ambientais realizados na região registraram o abandono do imóvel e apontaram a restauração como uma possibilidade de resgate da história de Pitimbu e de fortalecimento da cultura e do turismo local.
E há um detalhe importante: o casarão já possui proteção como patrimônio histórico, cultural e arquitetônico do Estado da Paraíba. A Lei Estadual nº 9.923, de 2013, determinou o tombamento do prédio do Casarão da Fazenda Sede Velha do Abiaí e de seu acervo, proibindo sua destruição ou descaracterização, mas o então governador Ricardo Coutinho vetou a Lei, aprovada por unanimidade pela Assembleia Legislativa da Paraíba.
Isso muda a dimensão da responsabilidade sobre o imóvel. Não se trata simplesmente de uma propriedade antiga que pode ser recuperada quando houver interesse. Trata-se de um bem reconhecido como patrimônio.
O secretário de Meio Ambiente de Pitumbu, Alex Cristovam relata o seguinte sobre nvo processo de tombamento:
“A Prefeitura de Pitimbu/PB, por orientações de celeridade no processo, e seguindo as orientações do IPHAN, irá promover o tombamento municipal. O IPHAN/PB, se dispôs a auxiliar o município durante todo o processo técnico até a sua finalização. Os trâmites legais já estão em andamento.”
Entre o passado e uma nova possibilidade
A esperança ganhou novo contorno recentemente.
A Prefeitura de Pitimbu iniciou uma ação de limpeza na área do casarão, com retirada de vegetação e resíduos que avançaram sobre o entorno da construção. A iniciativa representa, neste momento, um primeiro gesto concreto diante de uma história de abandono.
Uma nova etapa da ação está prevista para este sábado (12), dando continuidade ao trabalho de limpeza.
A iniciativa, por si só, ainda não significa a restauração do casarão. E talvez seja justamente essa a distinção que precisa ser feita: limpar é diferente de restaurar. Mas a limpeza pode ser o começo necessário para que o imóvel volte a ser acessível, possa ser tecnicamente avaliado e se torne novamente objeto de um projeto de preservação.
A própria documentação de planejamento do município aponta a restauração do casarão e sua transformação em ponto turístico como uma possibilidade para Pitimbu, associando patrimônio, cultura, turismo e desenvolvimento local.
A ideia também não é nova. Em 2021, a Prefeitura de Pitimbu formalizou uma cooperação técnica com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) para tratar do patrimônio histórico municipal, incluindo o Casarão do Abiaí.
O que pode nascer das ruínas
Há algo simbólico no fato de uma casa construída para observar uma propriedade inteira ter hoje de ser observada de perto pela sociedade para não desaparecer.
O Casarão do Barão do Abiaí pode ser apenas uma ruína. Mas também pode ser outra coisa: um espaço de memória, cultura, educação e turismo histórico.
Pitimbu já possui uma vocação turística associada às praias, rios, falésias e paisagens naturais. A própria estrutura turística oficial do município apresenta a Barra do Abiaí como um dos atrativos naturais locais. A recuperação do casarão poderia acrescentar a esse roteiro uma dimensão diferente: a possibilidade de conhecer não apenas as belezas naturais do território, mas também as histórias que foram construídas nele.
O desafio, contudo, é grande. Uma restauração responsável exigirá estudos técnicos, projeto arquitetônico especializado, recursos, acompanhamento dos órgãos de patrimônio e respeito às características originais da edificação.
Não basta pintar paredes antigas. Não basta reconstruir aquilo que caiu. Preservar é compreender o que restou, documentar, recuperar o possível e impedir que uma intervenção apressada transforme patrimônio em cenário.
A esperança começa pela limpeza
Por enquanto, o que existe é um gesto inicial.
Entre mato, paredes desgastadas e marcas de décadas de abandono, o casarão começa novamente a chamar atenção. A limpeza não devolve o passado, mas pode abrir caminho para que ele seja conhecido, estudado e preservado.
O Barão do Abiaí morreu em 1892. A casa, entretanto, permaneceu.
Mais de um século depois, talvez a grande pergunta já não seja apenas quem foi o homem que viveu ali, mas o que a nossa geração fará com o lugar que ele deixou.
Porque algumas ruínas são apenas ruínas.
Outras ainda estão esperando uma chance de contar a própria história.
E o Casarão do Barão do Abiaí parece estar entre elas.
Por Jairo Alves
Jairo Alves
É Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

