Editorial
O Supremo Tribunal Federal chegou a um ponto em que a permanência do ministro Alexandre de Moraes na Corte já não é mais defensável. Nos últimos dias, uma sequência de revelações ligadas ao caso Banco Master colocou o magistrado no centro de uma crise institucional sem precedentes recentes — e o silêncio ou a demora do próprio Supremo em responder só aprofunda o desgaste.
O estopim foi a divulgação de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, preso na operação que apura fraudes bilionárias no banco. As trocas, segundo apuração do Estadão, registram interações atribuídas pelos investigadores ao próprio Vorcaro, a Moraes e a pessoas ligadas à família do ministro. Entre os episódios revelados está o fato de que o banqueiro teria consultado o ministro sobre deixar o país dias antes de sua prisão — uma informação, no mínimo, incompatível com a distância que se espera de quem investiga.
Some a isso um dado que por si só já deveria bastar: contratos entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Em nota, o próprio escritório confirmou que, diante do pedido de contratação por parte do Banco Master, seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre eventuais impedimentos — o que, ao invés de dissipar a suspeita, expõe que a proximidade entre os interesses do banqueiro investigado e o círculo familiar do relator do caso é reconhecida por eles mesmos.
A reação da imprensa não deixa margem para dúvida sobre a gravidade do momento. Editoriais de três grandes veículos, publicados entre terça e quarta-feira desta semana, defenderam abertamente a saída do ministro do Supremo. Um deles chegou a comparar a situação à de Dias Toffoli, que preferiu abrir mão da relatoria das investigações sobre o Banco Master diante do desgaste — um gesto de autopreservação institucional que Moraes, até agora, não teve. Outro editorial foi direto: defendeu a renúncia imediata ou a abertura de processo de impeachment no Senado. Um terceiro cobrou que o presidente do STF, ministro Edson Fachin, convoque com urgência o plenário para examinar o caso.
Não é pouca coisa quando a própria imprensa que historicamente blindou o ministro em outros episódios passa a pedir sua saída. E o problema não se resolve com uma simples troca de relator. Como bem observam juristas ouvidos pela imprensa, mesmo que Moraes deixe o cargo voluntariamente, isso não apaga eventuais crimes que possam ter sido cometidos, tampouco encerra automaticamente qualquer investigação. Renunciar agora, aliás, teria um efeito perverso: impediria que o Senado sequer iniciasse a votação de um processo de impeachment, caso uma denúncia por crime de responsabilidade viesse a ser formalizada. A saída “pela porta dos fundos” não pode ser usada como escudo.
É preciso dizer, por justiça, que Moraes ainda não foi formalmente indiciado no caso e que o próprio ministro, por ora, não se pronunciou publicamente admitindo qualquer irregularidade; a defesa da manutenção do cargo argumenta que ele pode permanecer no STF mesmo que venha a ser investigado. Mas a suspeita levantada não é sobre um detalhe technical — é sobre a possibilidade de que o homem que concentrou, nos últimos anos, um poder de investigação, prisão e censura sem paralelo na história recente do país tenha usado essa mesma posição para proteger, ou ao menos dialogar de forma imprópria com, um banqueiro sob sua própria jurisdição.
Um país que preza pela Justiça não pode aceitar que a Justiça se proteja de si mesma. Se as instituições brasileiras ainda funcionam, cabe agora ao STF, ao Senado e à Procuradoria-Geral da República dar uma resposta rápida e transparente. Alexandre de Moraes precisa deixar o cargo — seja por renúncia, seja por afastamento formal — para que as investigações sigam seu curso sem a sombra de quem deveria ser investigado e não julgador.

