Artigo de Jairo Alves
Em poucos dias, um escritor conhecido por livros de autoajuda e psicologia virou o nome mais comentado da política brasileira. Depois de participar do primeiro debate presidencial das eleições de 2026, promovido pela Band no dia 23 de agosto, o psiquiatra Augusto Cury (Avante) viu seu perfil no Instagram saltar de cerca de 8,3 milhões para mais de 10 milhões de seguidores — um crescimento de quase 2 milhões em poucos dias. No mesmo período, ele liderou o volume de buscas no Google durante o programa, superando inclusive nomes mais bem colocados nas pesquisas eleitorais, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
O fenômeno chama atenção por um motivo simples: Cury não é um político de carreira. Ele construiu reputação nacional como médico, psiquiatra, psicoterapeuta e autor de best-sellers sobre emoções, comportamento e desenvolvimento pessoal, com obras vendidas em mais de 70 países. É o criador da Teoria da Inteligência Multifocal, linha de pesquisa dedicada a entender como a mente humana constrói pensamentos e emoções — e que hoje ele tenta transportar, de forma inédita, para o diagnóstico da vida pública brasileira.
Da clínica para o debate
A entrada de Cury no radar do grande público começou de um jeito quase teatral. Ao chegar à sede da Band, no Morumbi, ele anunciou que não participaria do debate, em protesto contra a ausência de Lula e de Flávio Bolsonaro, os dois nomes à frente nas pesquisas de intenção de voto. Minutos depois, após conversar com o jornalista Fernando Mitre, voltou atrás e decidiu entrar no estúdio ao lado de Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).
Foi nesse intervalo — entre a desistência anunciada e a volta atrás — que o nome do escritor disparou nas redes. E foi dentro do debate que ele expôs a tese que sustenta toda a sua candidatura: a de que o Brasil não está dividido entre dois lados, mas afundado em um único barco, doente pela radicalização mútua entre lulismo e bolsonarismo.
O psiquiatra que diagnostica o país
Não é força de expressão dizer que Cury trata a polarização como um paciente. Sua trajetória profissional é justamente a de alguém que passou décadas estudando os mecanismos da mente, da ansiedade coletiva e da construção do pensamento — e é esse repertório clínico que ele importa para a arena política. Em entrevistas recentes, tem descrito o cenário nacional como uma sociedade “dramaticamente doente, polarizada, radicalizada”, usando o vocabulário da psiquiatria para nomear um problema que, segundo ele, tem sido tratado por décadas apenas como problema de conjuntura eleitoral.
É esse cruzamento, entre a bagagem médica e a leitura da crise política como sintoma emocional coletivo, que parece explicar boa parte do interesse repentino do público. Cury não chega como um outsider qualquer: chega como alguém que, ao menos no discurso, promete aplicar à nação a mesma lente que aplicaria a um paciente em sofrimento — ouvir, diagnosticar e propor um caminho de equilíbrio, em vez de escolher um lado da trincheira.
Terceira via, sem se dizer nem de direita nem de esquerda
Essa recusa em se encaixar nos dois polos é o centro da estratégia de Cury. Ele evita se declarar formalmente de esquerda ou de direita e prefere se apresentar como alternativa aos dois principais blocos, reivindicando uma postura de centro que combina liberdade econômica com preocupação social — ele mesmo já resumiu a própria posição como uma mistura de mente capitalista com coração social.
Na prática, isso o deixa em um território ambíguo: setores de centro-direita simpatizam com suas propostas econômicas, enquanto sua defesa de direitos humanos e sua crítica ao discurso mais raivoso da política afastam parte do eleitorado mais radicalizado dos dois lados.
Os primeiros ataques
O preço da exposição repentina veio rápido. Ainda durante o debate, Cury entrou em atrito com Renan Santos, ligado ao Movimento Brasil Livre e a pautas da direita mais combativa, depois que o candidato do Missão chamou Lula de “bêbado safado” e classificou o senador Flávio Bolsonaro como portador de um grave déficit cognitivo. Cury reagiu dizendo que o nível de agressividade do adversário o assombrava e que a truculência sufocava a capacidade das pessoas de formar opinião própria, resposta que rendeu, dias depois, uma réplica irônica de Renan, que disse achar “sexy” ser chamado de agressivo.
Do outro lado do espectro, apoiadores mais fervorosos de Lula também passaram a mirar o psiquiatra, incomodados com sua insistência em tratar o governo atual e o bolsonarismo como faces do mesmo problema, o que, na leitura de parte da militância petista, equivale a colocar vítima e algoz num mesmo patamar. O resultado é que Cury, mal estreou na política, já coleciona farpas dos dois lados da fronteira que diz querer superar.
Um sintoma maior do que o candidato
Ainda é cedo para saber se o boom digital de Augusto Cury vai se traduzir em votos: levantamentos feitos logo após o debate ainda o mostravam com apenas 2% das intenções de voto. Mas o episódio funciona como um retrato sintomático do momento brasileiro: uma nação que, cansada da guerra entre dois generais conhecidos, testa a hipótese de confiar o próprio humor coletivo a um médico. Resta saber se o diagnóstico de Cury sobre a “loucura da polarização” vai virar tratamento eleitoral ou ficar apenas no consultório das redes sociais.
Jairo Alves
Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

