Presidente russo esteve em Iturup, uma das ilhas reivindicadas pelo Japão; visita reacende disputa territorial que atravessa décadas e amplia a tensão geopolítica no Pacífico
A visita do presidente russo Vladimir Putin à ilha de Iturup, uma das quatro ilhas do arquipélago das Curilas reivindicadas pelo Japão, provocou uma forte reação de Tóquio e acrescentou uma nova camada de tensão às relações entre Rússia e Japão.
Putin esteve na ilha nesta quinta-feira (13), em sua primeira visita ao arquipélago das Curilas, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional. Durante a passagem, visitou instalações locais, entre elas uma escola, um hospital e uma unidade de processamento de pescado.
O território é administrado pela Rússia, mas o Japão reivindica as quatro ilhas mais ao sul — Iturup, Kunashir, Shikotan e as ilhotas Habomai — que Tóquio chama de Territórios do Norte. A disputa remonta ao final da Segunda Guerra Mundial e continua sendo um dos principais obstáculos para a assinatura de um tratado de paz formal entre os dois países.
Japão considera visita inaceitável
O governo japonês reagiu duramente à viagem.
A primeira-ministra Sanae Takaichi classificou a presença de Putin no território como “absolutamente inaceitável” e reafirmou que o Japão considera as ilhas parte de seu território tanto sob a perspectiva histórica quanto pelo direito internacional.
O Ministério das Relações Exteriores japonês também convocou o embaixador russo para apresentar um protesto formal contra a visita.
Moscou, por sua vez, rejeitou a contestação japonesa e reafirmou sua soberania sobre as ilhas. A Rússia controla o arquipélago desde a ocupação soviética no final da Segunda Guerra Mundial.
Washington entra no debate
A reação não ficou restrita a Moscou e Tóquio.
O governo dos Estados Unidos reafirmou nesta sexta-feira (14) seu reconhecimento da soberania japonesa sobre os chamados Territórios do Norte. O embaixador americano no Japão, George Glass, afirmou que o apoio de Washington a Tóquio permanece “inabalável” e vinculou a posição americana à aliança entre os dois países.
A manifestação americana acrescenta peso internacional à disputa justamente em um momento de crescente tensão no Indo-Pacífico, região que também envolve questões envolvendo China, Taiwan e Coreia do Norte.
Uma disputa antiga em um cenário cada vez mais tenso
As ilhas foram tomadas pela União Soviética nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Desde então, Japão e Rússia — anteriormente União Soviética — não conseguiram resolver definitivamente a questão territorial.
A situação piorou ainda mais depois da invasão russa da Ucrânia, em 2022. O Japão aderiu às sanções contra Moscou, e a Rússia interrompeu negociações relacionadas ao tratado de paz.
Agora, a visita de Putin funciona também como uma demonstração política de que Moscou pretende manter o controle sobre as ilhas.
O episódio, portanto, vai muito além de uma visita presidencial. Em um Pacífico cada vez mais disputado, cada desembarque, exercício militar ou declaração territorial carrega um recado geopolítico. E, desta vez, Putin escolheu fazer o seu diretamente em um território que o Japão continua dizendo que é seu.

