EDITORIAL
O futebol é, antes de tudo, uma linguagem. Dentro de campo, onze jogadores de cada lado disputam não apenas uma bola, mas um símbolo: a camisa, o escudo, a história de uma cidade ou de uma torcida que se reconhece naquele emblema. É esporte de contato, de tática, de imprevisibilidade, mas, sobretudo, é disputa simbólica. Vence quem melhor representa, no gramado, aquilo que sua torcida sonha ver representado: raça, técnica, beleza, entrega. Nada disso, em nenhuma hipótese, autoriza a violência fora das quatro linhas.
Foi o que faltou compreender a quem promoveu a confusão registrada neste sábado (8) nos arredores do Estádio Almeidão, em João Pessoa, minutos antes do duelo entre Botafogo-PB e Santa Cruz, pela Série C do Campeonato Brasileiro. Uma briga entre torcedores gerou correria, tensão e o uso de gás de pimenta, que, segundo relatos, atingiu também crianças e mulheres que nada tinham a ver com a disputa entre grupos. É a imagem mais triste que o futebol pode produzir: não a de uma jogada, um gol ou uma discussão tática, mas a de famílias fugindo do entorno de uma praça esportiva.
O mais grave é que o episódio ocorreu apesar de um esquema de segurança reforçado. O Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor do Ministério Público da Paraíba (Nudetor/MPPB) havia montado uma operação especial justamente para evitar cenas como essa: as torcidas organizadas Jovem e Fúria, do Botafogo-PB, e Inferno Coral, do Santa Cruz, estavam proibidas de entrar no estádio; torcedores visitantes não podiam comprar ingresso no dia do jogo; tapumes separavam os setores. Ainda assim, a violência encontrou brecha. Isso não é motivo para relativizar o planejamento — é motivo para reconhecer que a raiz do problema não se resolve apenas com tapumes e escalação de policiamento. Ela exige mudança de cultura.
Botafogo-PB e Santa Cruz não são times quaisquer. São camisas tradicionais do futebol nordestino, com rivalidade histórica e equilíbrio de forças, o tipo de confronto que, em qualquer lugar do mundo, é tratado como festa do esporte, motivo de orgulho regional, de identidade. O jogo desta tarde, decisivo para as pretensões de acesso das duas equipes na Série C, deveria ser lembrado pelo que aconteceu dentro de campo: a luta do Belo para se aproximar do quadrangular final, o Santa Cruz mirando as primeiras posições da tabela. Em vez disso, o que precede a partida já entra para a crônica policial.
É preciso dizer com todas as letras: torcer não é guerra. A rivalidade é parte da beleza do esporte: ela dá sentido ao clássico, tempera a expectativa, alimenta a paixão que enche estádios. Mas rivalidade e violência são coisas diferentes, e tratá-las como sinônimos é um erro que o jornalismo esportivo não pode cometer, nem a sociedade pode normalizar. Quando a briga vira rotina, quando o “isso sempre acontece” substitui a indignação, é o próprio esporte que perde. Perdem os clubes, que veem sua imagem associada à truculência. Perdem os torcedores de bem, maioria esmagadora, que só querem empurrar seu time com a camisa vestida. Perdem, sobretudo, as famílias que vão ao estádio para viver a festa e voltam para casa levando susto, correria e gás de pimenta.
Medidas como as adotadas pelo Nudetor/MPPB são necessárias, mas não bastam sozinhas. É preciso que os próprios clubes assumam responsabilidade sobre suas torcidas organizadas, que a Justiça Desportiva trate esses episódios com o rigor que merecem, e que a cobertura esportiva — a nossa também — recuse qualquer tentação de tratar a violência como pitoresco ou inevitável. O futebol nordestino é grande demais, tem história e paixão demais, para seguir sendo refém de quem confunde rivalidade com confronto. A disputa simbólica que faz a graça do jogo só continua bonita se ficar dentro do campo.
Essa é a opinião do Seliga Litoral

