Em entrevista exclusiva, o historiador Felipe Matheus fala sobre as origens da capital paraibana, o papel do estado na formação do Brasil e a urgência de resgatar o ensino de história local como caminho para a identidade cultural.
João Pessoa é mais do que um nome na de uma cidade. Na essencialidade histórica-sociológica do município que faz aniversário de fundação hoje, tudo fala a quem tem sensibilidade de escutar: disputas antigas, vidas que atravessaram séculos de esquecimento e resistência, um povo que aprendeu a se reconhecer no que restou das pedras, das igrejas e das ruas que já tiveram outros nomes. Aos 441 anos, completados nesta quarta (5), a capital paraibana carrega histórias que poucos conhecem em profundidade, mas que influem, silenciosamente, o modo como seus filhos enxergam a si mesmos.
Para tentar compreender essa trajetória, do sangue derramado nas expedições de conquista até os desafios atuais de preservar a memória em meio ao concreto que avança em direção à praia, conversamos com o professor Felipe Matheus, historiador dedicado ao estudo da história eclesiástica do Brasil, da história da Paraíba e da cultura regionalista. A seguir, a entrevista na íntegra.
As origens: da conquista à consolidação
Jairo Alves
Como surgiu a cidade de João Pessoa e qual a importância dela para o Nordeste e para o Brasil, ontem e hoje?
Felipe Matheus
Os primeiros registros cartográficos da atual João Pessoa surgem poucos anos depois da data do descobrimento do Brasil. Algo entre 1501 e 1503. Era o registro do “Rio São Domingos”, atual Rio Parahyba.
Na divisão das capitanias hereditárias, o território da nossa capital ficou alocado à capitania de Itamaracá. Nos anos 70 do século XVI, deu-se um famoso incidente na região de Tracunhaém (existem certas disputas sobre a localidade exata; a região citada, contudo, é referendada por Irineu Ferreira Pinto, Horácio de Almeida e a historiografia clássica da Paraíba, via de regra). Depois do caso, a coroa de Portugal expediu ordens para a conquista da Parahyba.
Esse circuito todo durou de 1574 até 1585. Ao todo, 5 expedições militares. Uma guerra dura, sangrenta e que fornece alguma razoabilidade para o lema oficial de João Pessoa: “Intrepidida ab origine”. Destacam-se como maiores responsáveis pela conquista do território: Martin Leitão, Frutuoso Barbosa, Piragibe, João Tavares e Diego Flores de Valdés.
Resumindo a ocasião: portugueses e tabajaras formavam um bloco em disputa contra potiguaras e franceses. O pau-brasil da Paraíba, à época, era considerado na esteira dos melhores da Terra de Santa Cruz. Os leitores poderão conferir toda a trama do que estamos narrando no famoso livro “A Conquista da Parahyba/Sumário das Armadas”, notadamente conhecido como a certidão de nascimento da antiga Cidade Real de Nossa Senhora das Neves.
A vitória dos portugueses cooperou para desbaratar o avanço francês no litoral brasileiro, além de conter os ânimos potiguaras em relação a Pernambuco e outras capitanias. Facultou também a conquista do Rio Grande do Norte e parte do Ceará.
Até a invasão holandesa no século XVII, a região de Filipéia de Nossa Senhora das Neves prosperava regularmente, especialmente no que diz respeito ao trabalho com o açúcar.
Uma terra de gigantes
Leito de figuras importantes, a Paraíba sempre auxiliou o Brasil nas suas horas mais difíceis. Aristides Lobo, na proclamação da República. Epitácio na presidência. José Américo numa das principais pastas do governo provisório de Getúlio Vargas depois da revolução de 30. Afora a imortal figura de André Vidal de Negreiros, alma do movimento conhecido como “insurreição luso-brasileira”, expulsando os calvinistas holandeses em definitivo da Zona da Mata do que hoje conhecemos como Nordeste.
Culturalmente, expande-se a contribuição. José Lins do Rego, Augusto dos Anjos, outras figuras ilustres localmente como Olivina Olívia, Padre Zé Coutinho e o primeiro Bispo e Arcebispo da Parahyba: Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, figurando como uma das lideranças do episcopado nacional no seu tempo de vida. Há também a acrisolada e heróica figura de Dom Vital.
Avaliemos: no dorso militar, a chamada vocação do exército brasileiro desenhou-se ao redor da figura de um paraibano, André Vidal de Negreiros. Na administração pública, os exemplos de Epitácio Pessoa e José Américo, lapidares. No campo da cultura, a participação na Academia Brasileira de Letras sempre foi uma constante.
Tal como narrado em “A Paraíba e Seus Problemas”, contudo, sofreu o Estado com uma mormente desconsideração de forma geral por parte dos governos centrais ao longo da história do Brasil. Apesar de tudo, das secas, das durezas e dos atrasos, sobreviveu.
Memória viva: o desafio de preservar plenamente
Jairo Alves
Qual a importância de preservar a história da cidade para criar uma consciência de identidade cultural nos seus “filhos”?
Felipe Matheus
Há alguns anos, praças importantes do Brasil retomaram mais consistentemente o debate sobre preservação do patrimônio histórico. Coisa positiva, naturalmente. Existem lacunas, contudo. A primeira delas: o patrimônio não pode ser encarado como pedra morta. Não pode ser adaptado simplesmente para uma espécie de mortuário em campo aberto das cidades. Precisa ser utilizado, adaptado e mantido vivo dentro da sociedade.
Existe também a imperiosa necessidade de se resguardar com a “preservação” uma intensa campanha dedicada a fornecer aos locais da Terra uma consciência histórica robusta. É preciso que se devolva para as escolas estaduais e municipais o ensino de história da Paraíba.
Mal também não faria uma série de campanhas publicitárias dedicadas a alargar informações sobre a memória regional de forma séria. Além de incentivos para reedições de clássicos sobre história da Paraíba, somando ajudas que contribuam para produções mais recentes. História é também ciência. A História também precisa ser encarada e tratada nos patamares mais elevados.
Só revitalizar prédios não basta. Sem uma consciência histórica em conjunto, as reformas de manutenção serão constantemente necessárias, porque haverá desapego e desrespeito por parte da população. Pintou-se a Igreja de São Frei Pedro Gonçalves outro dia, rapidamente foi vandalizada.
Pela falta de um ensino de história sério, saímos das escolas com a impressão de estudar a “dama” na expressão de Machado de Assis, num completo descompasso em relação à nossa própria vida particular. São, todavia, coisas que se conectam. Respeitar os mortos, colher lições do passado, são pré-requisitos indispensáveis para uma sociedade que se pretenda saudável. Os nossos cemitérios, quase sempre abandonados, apresentam o triste modo como se costuma dialogar com esta memória.
Seria muito bom se a Câmara Municipal de João Pessoa, por exemplo, começasse a debater a devolução dos nomes de ruas mais antigas do Centro. A Rua Nova (atual General Osório) poderia servir de esteira para reiniciar o processo. Estas devolutas poderiam contribuir significativamente no sentido de movimentar a cidade em bons debates, que gerassem, como consequência, um maior interesse pelo tema.
Outro traço importante é voltar a olhar culturalmente para o nosso Estado respeitando as regionalidades inseridas no mapa da Paraíba. A cultura da Zona da Mata é distinta da cultura do agreste, do sertão, etc. Precisam ser trabalhadas naquilo que possuem de específico, mesmo porque, apenas assim, haverá, genuinamente, um desejo — repito — de preservação.
Se a Filosofia é a rainha das ciências, a História bem poderia figurar como a conselheira. Quem desconhece o passado fatalmente errará nos rumos do presente e do futuro.
Sobre o entrevistado
Felipe Matheus é professor católico, professor e pesquisador de História Eclesiástica do Brasil, história da Paraíba e cultura regionalista. Fundador da Gazeta Parahyba e presidente da Associação de Historiadores Católicos do Brasil (AHCB). Estudou História na Universidade Federal da Paraíba.
Nesta quarta, dia 5 de agosto de 2026, vai ao ar um vídeo do professor e intelectual católico Felipe Matheus explicando esses processos a partir da oralidade no perfil do Instagram @seligalitoral_ (acompanhe!).

