Artigo de Jairo Alves
Diego Rafael da Silva tinha 19 anos. Ele poderia estar numa sala de aula de uma faculdade, praticando esportes, na balada, no tráfico, em alguma facção criminosa. Mas o jovem negro da enorme São Paulo estava limpando a sujeira que deixamos pelas cidades.
Trabalhava duro porque sabia que em casa tinha três pessoas dependendo do seu suor: a esposa, uma filha de 1 ano e outra criança de sete meses na barriga da parceira de vida. Ele foi sequestrado da existência por quem se acha no direito de tirar a vida alheia porque tem dinheiro.
Esse crime de trânsito é simbólico. Não é só mais um caso de injustiça viária que ocorre cotidianamente nas rodovias brasileiras. Há um elemento que escancara as relações sociais que estabelecemos neste país: um país inegavelmente desigual e de desigualdade violenta.
Diego era um gari. Ao ser atingido pelas costas enquanto trabalhava, o jovem remeteu às punhaladas sociológicas que o povo trabalhador leva todos os dias. Quem bateu em Diego bate todos os dias na cara da sociedade brasileira.
O motorista responsável pelo sequestro existencial do trabalhador é o empresário chinês Guofang Huang, de 53 anos. Ele estava bêbado. Passou pelo teste do bafômetro, que apontou 0,73 mg/L de álcool no sangue (valor bem acima do limite legal). Testemunhas e policiais relataram que ele mal conseguia parar em pé.
Aqui, quem tem dinheiro, via de regra, se impõe a quem luta para sobreviver e passa por cima como se não fosse pagar nada. É que não pagam mesmo, ou quase não recebem penas necessárias. Num dia é o empresário chinês que jogou o gari no lixo da existência, no outro o rapaz que bebe mais de 3 mil reais em boate e mata alguém na rua.
Carros bons, comprados com muito dinheiro e bons advogados. Isso é um traço em comum entre os algozes. Eles usam suas máquinas potentes para passar por cima do povo e descartá-lo. Poucos ou nenhum dia na prisão é o padrão.
Os parceiros de Diego, proletários da limpeza urbana se uniram em ato marcante. Devido à comoção e ao protesto pela morte do colega de trabalho, equipes da concessionária de limpeza urbana (Loga) paralisaram parcialmente os serviços de coleta de lixo em diversos bairros da capital entre segunda (27) e terça-feira (28).
O choro da mulher em cima do caixão derrama as lágrimas da nação. O Brasil sofre cotidianamente com as vidas descartadas, atropeladas por ricos soberbos e bêbados nas estradas.
Geovanna dos Santos Silva tem 20 anos, já tinha uma filha de 1 ano com Diego e estava grávida do segundo filho do casal no momento do acidente. O pranto da jovem viúva é o da mãe que viverá o luto, a luta e as dores de quem viu, literalmente, passarem por cima do seu companheiro. As crianças crescerão sem pai e a vida não será mais a mesma.
Já já a imprensa mira seus microfones e câmeras para outro lado e o empresário saíra caminhando pela porta da frente ao lado do seu advogado. Diego Rafael da Silva, por sua vez, não se levantará nunca mais. A sua vida foi descartada.
Jairo Alves
Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.
