A tarifa de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos a uma extensa lista de produtos brasileiros completa, nesta semana, cerca de dois meses em vigor, sem que Brasília e Washington tenham fechado um acordo bilateral para suspender ou reduzir a sobretaxa. A medida, confirmada pelo chefe do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) em 15 de julho de 2026 e efetivada em 22 de julho, segue como um dos principais focos de atrito comercial do ano entre os dois países.
O que está taxado e o que ficou de fora
A lista de produtos atingidos pela tarifa de 25% inclui uma variedade de itens que vai de alimentos a eletrônicos, com agricultura, tecnologia e indústria entre os setores mais expostos. Um caso que chamou atenção de exportadores foi o da celulose solúvel de alta pureza, que perdeu a isenção na versão final da medida americana — um recuo em relação a expectativas anteriores do setor. Também seguem sob tarifação os produtos já enquadrados nas sobretaxas da Seção 232 do comércio dos EUA, caso de aço, alumínio e cobre.
Por outro lado, ficaram de fora da lista de produtos taxados café, carne bovina e suco de laranja, além de castanha-do-pará, cacau, minério de ferro, produtos farmacêuticos, derivados de petróleo e peças para aviação civil — itens de peso relevante na pauta exportadora brasileira.
Contexto: um ano de escalada tarifária
O tarifaço contra produtos brasileiros se insere em um movimento mais amplo de elevação de barreiras comerciais pelos Estados Unidos ao longo de 2026. Segundo o Departamento de Economia da Universidade de Yale, a tarifa média efetiva de importação dos EUA saltou de 2,4% em janeiro de 2025 para 17,4% em setembro de 2026 — mais de sete vezes em pouco menos de dois anos. Nesse período, a União Europeia acabou obtendo uma tarifa de 10%, patamar mais baixo do que o aplicado ao Brasil, que soma os 25% de julho a uma sobretaxa adicional citada por fontes do setor de comércio exterior.
A resposta brasileira: Lei da Reciprocidade Econômica
Diante da tarifa, o governo brasileiro sinalizou a intenção de usar a Lei da Reciprocidade Econômica, mecanismo que prevê a aplicação de medidas proporcionais a barreiras comerciais impostas por outros países. O processo é coordenado pelo Comitê Interministerial de Reciprocidade Econômica e Comercial (Cincec) e inclui uma etapa de consulta pública antes da definição de qualquer contramedida — ou seja, mesmo com a ferramenta jurídica disponível, o governo não teria agido de forma unilateral e imediata até o momento.
Como argumento na negociação, o governo brasileiro tem destacado que os Estados Unidos fecharam 2025 com superávit de US$ 14,4 bilhões no comércio de bens com o Brasil — ou seja, mesmo peso das tarifas, a balança bilateral favoreceu os americanos, o que Brasília usa para contestar a narrativa de desequilíbrio comercial que motivou a medida.
Consequências para empresas exportadoras
Para as empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, dois meses de tarifa de 25% já significam custo adicional relevante na ponta final do produto, o que pressiona margens ou obriga repasse de preço ao consumidor americano — com risco de perda de competitividade frente a concorrentes de países tarifados em patamares menores, caso da própria União Europeia. Setores siderúrgico, de alumínio, cobre e de celulose especial são os que sentem o efeito mais direto, por já estarem sob a sobretaxa da Seção 232 ou por terem perdido isenção específica.
Relação com o Brasil
Do ponto de vista macroeconômico, a manutenção da tarifa por dois meses sem acordo aumenta a pressão sobre a diversificação de mercados que o governo brasileiro já vinha discutindo como estratégia de resposta ao tarifaço americano. Ministros da área econômica têm defendido publicamente que a diversificação de parceiros comerciais ajuda a reduzir o impacto agregado da medida sobre a economia brasileira, ainda que setores específicos sigam pressionados.
Reflexos para Paraíba e Pernambuco
Os portos de Suape (PE) e Cabedelo (PB) movimentam cargas de setores potencialmente afetados pela tarifa americana, caso de produtos siderúrgicos e derivados de celulose que passam pela cadeia logística regional a caminho de outros mercados ou de processamento local. Um eventual redirecionamento de exportações — de empresas que buscam mercados alternativos aos Estados Unidos diante da tarifa de 25% — tende a passar, ao menos em parte, pela infraestrutura portuária do Nordeste; é uma inferência baseada no papel desses portos na cadeia exportadora regional, já que os levantamentos consultados não trazem dado específico sobre volume redirecionado para PB ou PE. Empresas exportadoras da indústria do Agreste pernambucano e de Campina Grande que dependem de mercados externos também são candidatas a sentir efeito indireto de uma eventual reorganização de rotas comerciais.
Perspectivas
Com o Cincec ainda em fase de consulta pública sobre possíveis contramedidas, o desfecho do episódio segue em aberto: pode haver acordo bilateral que reduza ou suspenda a tarifa, manutenção do status quo por mais tempo, ou aplicação de reciprocidade brasileira sobre produtos americanos. Para empresas exportadoras, a orientação de especialistas em comércio exterior é acompanhar de perto os próximos passos do Cincec e eventuais sinalizações de negociação entre Brasília e Washington.
Fontes: Thomson Reuters Brasil (tax-accounting/comércio exterior); IEDI — Carta Iedi nº 1.332; Departamento de Economia da Universidade de Yale; declarações públicas do Ministério da Fazenda sobre diversificação comercial.

