Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), divulgado nesta terça-feira (15), estima que as apostas esportivas online — popularmente chamadas de “bets” — retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões do consumo e da atividade econômica brasileira em 2025. O valor equivale a algo entre 0,9% e 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país no período.
Um rombo do tamanho de metade do crescimento do país
Segundo os pesquisadores, a perda estimada corresponde a entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia brasileira registrado em 2025 — ou seja, as apostas online teriam consumido, sozinhas, quase metade do avanço do PIB do ano. Para efeito de comparação, o estudo aponta que o impacto das bets sobre a atividade econômica é cerca de cinco vezes maior do que as estimativas de perda de PIB causadas pelo chamado “tarifaço” americano, o pacote de tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos que afetou as exportações brasileiras.
Menos arrecadação para o governo, mesmo com imposto sobre bets
A redução na atividade econômica tem efeito direto sobre os cofres públicos. De acordo com o Made/FEA-USP, a queda de consumo e produção associada às apostas resultaria em uma perda de arrecadação de impostos estimada entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Descontado o valor arrecadado diretamente com a tributação das próprias plataformas de apostas — cerca de R$ 9 bilhões —, o efeito líquido sobre as contas públicas ainda seria negativo, entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões, segundo o levantamento.
Famílias endividadas para apostar
O estudo também chama atenção para o financiamento das apostas via crédito. Em uma hipótese classificada pelos próprios autores como extrema, até R$ 62,5 bilhões movimentados em apostas ao longo de 2025 poderiam ter sido bancados por operações de crédito — o equivalente a cerca de 14% de todo o aumento do endividamento das famílias brasileiras no ano. Isso significa que parte relevante do dinheiro apostado não veio de renda disponível, mas de cartão de crédito, cheque especial ou outras linhas de financiamento ao consumidor, o que amplia o risco de inadimplência associado ao fenômeno.
Por que isso importa para o comércio
Cada real gasto em uma plataforma de apostas é, em tese, um real que deixa de circular no varejo, nos serviços e na economia real — supermercados, lojas, restaurantes, salões e prestadores de serviço em geral. É esse o mecanismo que os pesquisadores da USP tentam quantificar: dinheiro que antes girava no comércio físico e cadeias produtivas locais passou a ser retido nas plataformas de apostas, boa parte delas sediadas fora do país ou com estrutura de repatriação de lucros pouco transparente. Para o pequeno e médio empresário, o resultado prático é um consumidor com menos renda disponível no fim do mês, mesmo em um cenário de juros em trajetória de queda.
Relação com o Brasil
O debate sobre a regulação das bets já é um dos temas mais discutidos no Congresso e no governo federal desde a entrada em vigor da lei que regulamentou o setor. O novo estudo da USP adiciona um argumento econômico ao debate, até então concentrado principalmente em questões de saúde pública e endividamento pessoal: o de que o setor pode estar tendo um efeito líquido negativo sobre o crescimento do país como um todo, mesmo gerando arrecadação tributária direta.
Reflexos para Paraíba e Pernambuco
Embora o estudo não traga dados desagregados por estado, o mecanismo identificado pelos pesquisadores — substituição de consumo no varejo físico por gasto em apostas — tende a afetar de forma semelhante praças de comércio como João Pessoa, Campina Grande, Recife e o Agreste pernambucano, onde pequenos e médios negócios dependem fortemente da renda disponível das famílias da região. É uma inferência econômica, já que o levantamento da USP tem escopo nacional: não há, até o momento, um recorte oficial que quantifique o efeito das bets especificamente sobre o consumo na Paraíba ou em Pernambuco, mas associações comerciais locais têm relatado informalmente a mesma preocupação identificada em nível nacional.
Perspectivas
O estudo do Made/FEA-USP deve alimentar o debate sobre eventuais mudanças na regulação do setor de apostas no Congresso Nacional, incluindo propostas de restrição a publicidade, limites de gasto por usuário e uso de crédito para apostar. Para o comércio, a expectativa é que o tema ganhe força nas discussões sobre retomada do consumo das famílias ao longo do que resta de 2026.
Fontes: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP (FEA/USP), estudo divulgado em 15/09/2026; cobertura da Folha Vitória, Em Tempo Notícias e OitoMeia sobre o levantamento.

