O pacote de tarifas adotado pelo governo do presidente americano Donald Trump ao longo de 2026 já deixa marcas mensuráveis no comércio exterior brasileiro. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), divulgados no início de setembro pelo diretor de estatísticas de comércio exterior da pasta, Herlon Brandão, as exportações do Brasil para os Estados Unidos recuaram 9,7% no acumulado entre janeiro e agosto de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025 — ainda que agosto isoladamente tenha registrado alta pontual de 12,1%.
Quem paga a conta do tarifaço
As novas tarifas americanas, que variam entre 25% e 37,5%, atingem cerca de 23% de toda a pauta exportadora brasileira aos EUA, com destaque para aço, madeira, sucos e derivados de origem animal. Levantamentos anteriores sobre o pacote também mostram que nem todos os produtos foram penalizados: itens como suco de laranja, castanha-do-pará, minério de ferro, estanho, silício, celulose, papel, ouro, prata, fertilizantes e equipamentos elétricos ficaram isentos, respondendo por cerca de 43% do total exportado ao mercado americano (US$ 42,3 bilhões). Já café, cacau, carnes e frutas não entraram na lista de exceções e seguem sob pressão tarifária direta — mesmo após o Supremo Tribunal Federal americano derrubar a tarifa geral de 50%, aço e alumínio continuam sob sobretaxa de 50%.
Efeito colateral: exportação de carne cai por medo de tarifa chinesa
O tarifaço americano também gerou um efeito indireto sobre outro mercado: a exportação brasileira de carne bovina, majoritariamente destinada à China, registrou queda de 19,7% em agosto de 2026. Segundo o MDIC, o recuo reflete uma antecipação dos próprios exportadores, que reduziram embarques para evitar o risco de serem alvo de uma tarifa chinesa de até 55% sobre o produto — um efeito de segunda ordem da tensão comercial entre Estados Unidos e China que acaba por afetar diretamente o Brasil.
Quanto pode custar ao Brasil
Uma análise do economista José Luis Oreiro, publicada em seu blog em 27 de julho de 2026 com base em dados do Global Trade Alert (GTA) — iniciativa internacional que monitora medidas protecionistas — classifica o Brasil como o segundo país mais penalizado pelo protecionismo do governo Trump, sujeito a uma tarifa média efetiva de 18,89%. O estudo projeta uma retração anual de US$ 3,49 bilhões no fluxo de exportações brasileiras e uma contração de R$ 34,76 bilhões no PIB ao fim de 24 meses — equivalente a uma queda de 0,27% do produto interno bruto total —, além da destruição de cerca de 136,8 mil postos de trabalho no período. Outra estimativa, da Amcham Brasil, citada pelo Gazeta do Povo, calcula em US$ 11 bilhões o volume de exportações diretamente afetado pela tarifa de 25% imposta a partir de meados de 2026.
Nem todo mundo perde: setores do Nordeste ganham competitividade
Paradoxalmente, parte da indústria nordestina pode se beneficiar da reconfiguração do comércio global provocada pelo tarifaço. Segmentos como rochas ornamentais e madeira, com presença na Bahia e no Ceará, ganham vantagem competitiva frente a concorrentes asiáticos também tarifados pelos EUA, assim como os setores aeronáutico, de máquinas e equipamentos, calçados, móveis, confecções e produtos químicos — este último grupo com relação direta ao polo de confecções do Agreste pernambucano, um dos maiores do país.
Relação com Pernambuco e Paraíba
Para Pernambuco e Paraíba, o canal de impacto mais direto passa pelo câmbio e pelo custo de insumos importados: a incerteza comercial tende a pressionar o dólar, encarecendo matéria-prima estrangeira usada por indústrias locais, ao mesmo tempo em que setores como confecções do Agreste podem ganhar competitividade relativa se concorrentes asiáticos perderem espaço no mercado americano por conta do próprio tarifaço. Já exportadores de frutas e carnes da região — segmentos diretamente tarifados — tendem a sentir o efeito inverso, com menor competitividade de preço nos Estados Unidos. Trata-se de uma leitura de contexto a partir dos mecanismos conhecidos do comércio exterior, não um efeito já mensurado especificamente para as duas economias estaduais, já que as fontes consultadas não detalham dados setoriais por estado.
O que ainda não está claro
Não há, nas fontes consultadas, uma estimativa oficial e consolidada de um único órgão do governo brasileiro sobre o impacto total do tarifaço na economia nacional — os números variam conforme a metodologia de cada análise (MDIC, Amcham Brasil, GTA/José Luis Oreiro). Também não está definido se e quando o governo brasileiro e o americano avançarão em uma negociação que reduza as tarifas atualmente em vigor.
Fontes: Metropoles (04/09/2026), com dados do MDIC; Gazeta do Povo (16/07/2026), com estimativa da Amcham Brasil; análise do economista José Luis Oreiro (27/07/2026), com dados do Global Trade Alert via ICL Notícias; Movimento Econômico (25/02/2026).

