A relação comercial entre Estados Unidos e Canadá, historicamente uma das mais integradas do mundo, viveu dias de forte tensão nesta semana. Em 9 e 10 de setembro, o governo americano anunciou o banimento de um conjunto de produtos canadenses — incluindo bebidas alcoólicas, laticínios e motocicletas — do mercado dos Estados Unidos, com uma tarifa de importação adicional programada para entrar em vigor em 29 de setembro.
A medida chega em meio a um pacote mais amplo de gestos do presidente americano, que incluiu inclusive a renomeação simbólica de acidentes geográficos compartilhados com o Canadá — o Lago Ontário passou a ser chamado por autoridades americanas de “Lake America” — em um movimento claramente político, associado também a uma promessa de campanha de pagamento de US$ 5 mil por adulto americano caso o Partido Republicano vença as eleições de meio de mandato.
A resposta de Ottawa
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, convocou seu círculo mais próximo de assessores para desenhar a resposta do país. A estratégia anunciada por Carney se apoia em dois eixos: “construir aqui” — ou seja, reforçar cadeias produtivas domésticas — e “diversificar internacionalmente”, reduzindo a dependência canadense do mercado americano. Carney reforçou publicamente que o país está “sempre pronto para negociar de forma profissional”, ao mesmo tempo em que reafirmou o Canadá como uma “potência energética”, citando fartura de recursos críticos como parte da estratégia de barganha do país.
Como parte dessa movimentação diplomática, Carney também se reuniu com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, selando um acordo de parceria de 100 anos que prevê, entre outros pontos, a produção conjunta de milhões de drones — um sinal de que Ottawa está buscando ativamente novos parceiros estratégicos fora da órbita americana.
Contramedidas já em vigor
O governo canadense não esperou a tarifa americana entrar em vigor para reagir. Em 8 de setembro, Ottawa implementou contratarifas contra produtos dos Estados Unidos. Em paralelo, a província de Novo Brunswick anunciou que, a partir de 1º de outubro, vai proibir a compra de bens e serviços americanos em contratos públicos acima de US$ 5 milhões — uma medida que atinge diretamente fornecedores americanos que dependem de contratos governamentais canadenses.
Quem sente o impacto primeiro
Entre os setores mais expostos está a indústria automotiva, cuja cadeia de suprimentos entre os dois países é fruto de décadas de integração — peças cruzam a fronteira várias vezes antes de um veículo ficar pronto, o que torna qualquer barreira tarifária particularmente custosa. Analistas ouvidos por veículos canadenses apontam para custos de entrada mais altos tanto para empresas quanto para o consumidor final, com tendência de repasse de preços. Já o varejo, de forma geral, tende a sentir menos o impacto imediato, na medida em que cadeias de suprimento já vinham reforçando fornecedores locais como resposta a tensões comerciais anteriores.
Os próximos capítulos
A crise segue com agenda movimentada: Toronto sedia, na próxima semana, uma Cúpula de Investimento Canadense, oportunidade que o governo Carney deve usar para reforçar o discurso de diversificação econômica perante investidores internacionais. Carney também tem visita programada ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo — outro movimento na direção de aproximar o Canadá da Europa como contrapeso à dependência do mercado americano. Nos bastidores, o secretário de Relações Exteriores canadense, Dominic LeBlanc, mantém negociações diretas com autoridades americanas.
Por que isso importa além da fronteira Canadá–EUA
Episódios como esse têm efeito didático para qualquer economia que negocia com os Estados Unidos, inclusive o Brasil: mostram como decisões tarifárias unilaterais podem se materializar rapidamente, como cadeias produtivas historicamente integradas ficam vulneráveis a decisões políticas de curto prazo, e como a resposta mais comum de países afetados tem sido a diversificação de mercados e o reforço de fornecedores domésticos — movimento que o Brasil também vem tentando fazer em setores como o agronegócio e a indústria, diante de tensões comerciais globais recorrentes nos últimos anos.
Fontes: CP24 (Bell Media, cobertura ao vivo de 10 de setembro de 2026) e agências internacionais.

