O litoral de João Pessoa vive a fase mais intensa de canteiros de obra da sua história recente. O Polo Turístico Cabo Branco, área planejada pelo governo da Paraíba entre a orla e o Altiplano, concentra hoje um conjunto de empreendimentos hoteleiros e de lazer que, somados, respondem por cerca de R$ 2,7 bilhões em investimentos privados contratados, aproximadamente 14 mil quartos de hotel e uma projeção da ordem de 20 mil empregos, segundo dados da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep), gestora da área. Levantamentos de imprensa e do próprio governo estadual chegam a citar cifras ainda maiores — até R$ 3,3 bilhões e 15 mil leitos — conforme entram novos contratos.
Tauá abre e vira o teste de demanda do polo
O empreendimento que transformou o polo de projeto em realidade visível foi o Tauá Resort & Convention João Pessoa, que entrou em operação em julho de 2026. É o primeiro resort de praia do Grupo Tauá, tradicional na hotelaria de interior, e representa investimento em torno de R$ 700 milhões — acima dos R$ 500 milhões inicialmente anunciados. O complexo tem 1.128 apartamentos previstos, área de cerca de 300 mil metros quadrados e deve oferecer mais de 5 mil leitos à Grande João Pessoa quando concluído, além de atrações como um parque aquático coberto apresentado pela rede como o primeiro do gênero no Nordeste.
A resposta comercial superou a expectativa da própria empresa. O grupo projetava cerca de 7 mil hóspedes no primeiro mês e passou a trabalhar com mais de 12 mil. “A demanda já era forte antes da abertura oficial, o que indica um desempenho comercial positivo desde o início”, afirmou a CEO do Grupo Tauá, Lizete Ribeiro, em entrevistas por ocasião da inauguração. O resort começou a operar com cerca de 460 funcionários, a maioria contratada na Paraíba, e a projeção é de aproximadamente 780 empregos diretos com a operação plena; a obra chegou a mobilizar cerca de 2 mil trabalhadores. O grupo estima alcançar R$ 1 bilhão de receita anual somando o novo resort e outras operações de gestão hoteleira.
Marriott entra com o Westin
Outro contrato relevante é o do The Westin João Pessoa, bandeira da Westin Hotels & Resorts, pertencente à Marriott International — o maior grupo hoteleiro do mundo. O governador João Azevêdo formalizou a instalação do hotel no Polo Cabo Branco; o projeto foi apresentado como uma injeção superior a R$ 143 milhões na economia estadual, com mais de 340 empregos diretos na fase de construção. A chegada de uma marca internacional de rede é lida pelo setor como um selo de maturidade do destino, capaz de atrair público corporativo e de eventos e de puxar tarifa média para cima.
Segundo a Cinep, o Polo Cabo Branco já tem contratados resorts, parque aquático, parques temáticos, parque ambiental e um shopping, além do Centro de Convenções de João Pessoa, que já funciona na área e ancora o segmento de eventos.
Um destino que já vinha crescendo
O ciclo de investimentos se apoia em números de demanda que vinham em alta antes das inaugurações. Dados da PBTur e da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis na Paraíba (ABIH-PB) apontaram ocupação hoteleira de 82,6% em João Pessoa em março de 2025, alta superior a 21% sobre o mesmo mês de 2024, e receita turística estadual de R$ 244,5 milhões no primeiro trimestre de 2025. A permanência média do visitante passou de cerca de 3,1 para 3,55 dias no mesmo comparativo. A companhia aérea Azul chegou a operar aumento expressivo de voos extras na alta estação 2025/2026 para o Aeroporto Castro Pinto, e o governo estadual destinou cerca de R$ 133 milhões a ações de promoção turística entre 2025 e 2026. Pesquisas da Booking.com também registraram salto nas buscas por João Pessoa, inclusive para a baixa temporada.
Impacto para empresas e consumidores
Para a cadeia local, a entrada de milhares de quartos novos tende a ter dois efeitos simultâneos. No curto prazo, aquece construção civil, fornecedores de mobiliário e enxoval, prestadores de serviço, agências de emprego e o comércio dos bairros do entorno (Cabo Branco, Altiplano, Portal do Sol). Na operação, amplia a contratação em hotelaria, alimentação, transporte turístico, passeios e eventos — setores que empregam mão de obra local e absorvem jovens no primeiro emprego.
Para o consumidor paraibano, o aumento da oferta hoteleira pode, com o tempo, pressionar preços para baixo fora dos picos de temporada e ampliar opções de lazer de fim de semana na própria cidade. Há também um risco a acompanhar: se a oferta de leitos crescer mais rápido que a demanda, parte dos hotéis pode operar com ocupação baixa, o que costuma levar a guerra de tarifas e aperto de margem. O setor apostou que a combinação de novos voos, marketing e marcas internacionais vai sustentar o ritmo de visitantes.
Relação com o Brasil e com Pernambuco
O movimento paraibano acontece num momento de disputa acirrada pelo turista de sol e praia no Nordeste, em que Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e Pernambuco também ampliam capacidade. Em Pernambuco, o Porto do Recife segue recebendo a temporada de cruzeiros — estimada em dezenas de milhares de passageiros no ciclo 2025/2026 — e há projeto de um novo terminal marítimo de passageiros. Recife e João Pessoa ficam a pouco mais de duas horas de carro uma da outra, o que na prática cria um corredor turístico integrado: parte do visitante que desembarca em Recife estende a viagem para a Paraíba, e vice-versa. Quanto mais leitos e atrações de um lado, maior o efeito de arraste para o outro.
Perspectivas
O teste dos próximos anos será encher os quartos que estão sendo construídos. Isso depende de manter e ampliar a malha aérea (nacional e, sobretudo, internacional), de calendário de eventos e de uma promoção coordenada entre governo e trade. Se a demanda acompanhar a oferta, João Pessoa deve consolidar-se como um dos principais destinos de praia do Nordeste e o turismo tende a ganhar peso na economia da Paraíba, historicamente puxada por serviços, comércio e administração pública. Se não acompanhar, o polo corre o risco de operar abaixo da capacidade e adiar novos contratos.
Fontes: Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep) — dados do Polo Turístico Cabo Branco; Governo da Paraíba; PBTur e ABIH-PB (ocupação e receita turística); Ministério de Portos e Aeroportos (temporada de cruzeiros no Porto do Recife).

