Um dos piores desastres naturais da história recente do Nepal completou dez dias neste início de setembro de 2026 com um balanço que não para de subir. Na manhã de 26 de agosto, por volta das 8h37 no horário local, um grande bloco de gelo e rocha — estimado em cerca de 0,2 quilômetro quadrado — desprendeu-se de uma geleira suspensa no monte Langtang Lirung, no Parque Nacional de Langtang, e despencou cerca de 1,2 quilômetro na vertical.
O que aconteceu
A queda pulverizou parte do gelo e da rocha e formou uma avalanche seguida de uma enxurrada de lama e detritos, que desceu o vale e ganhou o rio Trishuli. A massa percorreu entre 70 e 100 quilômetros rio abaixo, a velocidades próximas de 50 metros por segundo, soterrando aldeias inteiras, arrancando pontes e estradas e destruindo o porto de fronteira de Gyirong, entre o Nepal e a China. Corpos de vítimas foram encontrados a até 240 quilômetros de distância, alguns já em território da Índia.
O balanço de vítimas
Até o início de setembro, as autoridades nepalesas confirmavam mais de 1.342 mortos, cerca de 4.886 desaparecidos e mais de 5 mil feridos. Na Região Autônoma do Tibete, na China, foram registradas outras dezenas de mortes e mais de 500 desaparecidos. Entre os desaparecidos há centenas de estrangeiros — cerca de 583 no Nepal e 261 no Tibete —, de mais de 39 países, já que a região é rota de trekking muito procurada em agosto.
Estrutura destruída
Levantamentos preliminares apontam mais de 8,3 mil casas destruídas, dezenas de pontes penseis danificadas ou inutilizadas e 13 projetos hidrelétricos atingidos, o que tirou cerca de 431 megawatts da rede elétrica nepalesa. Centenas de trabalhadores de usinas seguem desaparecidos, parte deles presa em túnteis de adução. O prejuízo inicial é estimado em torno de US$ 2,5 bilhões.
A causa: geleira, não terremoto
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou ondas sísmicas compatíveis com o colapso de uma geleira, e não com um terremoto. Cientistas que analisaram imagens de satélite identificaram uma ruptura de quase um quilômetro de largura na face norte da montanha, a mais de 5 mil metros de altitude, e associam o desprendimento a uma falha na rocha de base, provavelmente agravada pelo derretimento do permafrost — o solo permanentemente congelado que dá sustentação às encostas de alta montanha.
A conexão com a mudança climática
Pesquisadores ouvidos por veículos internacionais afirmam que a mudança climática “provavelmente aumentou a probabilidade” de um evento como esse. O aquecimento das últimas décadas vem degradando o permafrost e tornando geleiras suspensas menos estáveis em toda a cordilheira do Himalaia — chamada de “terceiro polo” por concentrar a maior reserva de gelo fora das regiões árticas. A relação direta de causa e efeito para este colapso específico ainda é objeto de estudo, mas o desastre passou a ser citado como exemplo do risco crescente de eventos extremos ligados ao degelo.
Relação com o Brasil
O desastre acontece a poucos meses da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, que o Brasil sedia em Belém, no Pará, em novembro de 2026. Adaptação a eventos extremos, financiamento climático para países vulneráveis e o chamado mecanismo de “perdas e danos” estão entre os temas centrais da conferência, e tragédias como a do Nepal tendem a reforçar a pressão por compromissos concretos. O Brasil chega à COP30 também com sua própria conta de desastres climáticos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul e as secas na Amazônia.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Não há geleiras nem risco de avalanche no Nordeste, e qualquer ligação com a Paraíba e Pernambuco é indireta — trata-se de uma inferência sobre o quadro climático, não de um impacto local. Ainda assim, os dois estados têm sua própria face do problema: a irregularidade das chuvas no Sertão e no Cariri, o avanço do mar sobre trechos do litoral, como em João Pessoa e no Recife, e chuvas intensas concentradas em poucos dias na Zona da Mata. O debate que a COP30 traz para o Brasil — preparar cidades e áreas rurais para extremos climáticos — tem aplicação direta em políticas de defesa civil, saneamento e convivência com a seca nas duas regiões.
Perspectivas
As buscas por desaparecidos devem prosseguir por semanas, e o número de mortos ainda pode subir. O governo nepalês já anunciou revisão das normas de construção de hidrelétricas e de ocupação de vales de alta montanha. No plano internacional, o caso deve ser levado às discussões da COP30 como argumento a favor de mais recursos para adaptação e sistemas de alerta em regiões de montanha.
Fontes
Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

