Fornecedores chineses de terras raras e de outros minerais críticos estão suspendendo remessas para empresas americanas por temor de represálias do governo de Pequim, mostrou reportagem da agência Reuters publicada em 4 de setembro de 2026 e replicada por veículos como Mining.com, U.S. News e Free Malaysia Today. O recuo ocorre a poucas semanas de uma visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, a Washington, prevista para 24 de setembro.
O que está acontecendo
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, empresas chinesas do setor vêm recusando embarques para os Estados Unidos desde o início de agosto, quando a China sancionou a Responsible Business Alliance (RBA) — entidade americana que monitora cadeias de fornecimento — e outras firmas de auditoria dos EUA. Pequim justifica a medida como resposta a uma série de restrições impostas pela FCC (agência reguladora de telecomunicações americana) desde dezembro contra laboratórios chineses de testes eletrônicos, drones, roteadores de consumo, cabos submarinos, equipamentos de robótica avançada e inversores de energia.
Com a RBA sancionada, empresas chinesas passaram a temer punição de Pequim caso cumpram as exigências de due diligence do Responsible Minerals Initiative (RMI), programa global de auditoria de cadeias minerais ligado à RBA e usado por compradores ocidentais para comprovar a origem responsável dos materiais.
Materiais e setores afetados
Entre os materiais mais afetados estão o ítrio, o fosfeto de índio e o tungstênio — insumos com aplicações militares ou usados em setores sensíveis como aeroespacial, fabricação de chips, energia e dispositivos médicos. Segundo a Reuters, os preços desses materiais críticos seguem próximos de máximas históricas, com oferta apertada. As exportações de ítrio para os Estados Unidos cresceram ao longo de 2026, mas ainda somam cerca de metade do volume registrado em 2024, apesar de embarques maiores para outros países. Em julho, a China enviou 27 toneladas de ítrio aos EUA.
O aperto se soma a um quadro mais amplo de restrições que já vinha afetando outros parceiros comerciais da China: as exportações de térbio para o Japão foram zero entre janeiro e agosto, e os embarques de gálio para o país caíram 65% no mesmo período.
Contexto: a trégua de terras raras entre EUA e China
O impasse ocorre dentro do período de trégua comercial fechado entre Washington e Pequim após a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Naquele acordo, a China suspendeu por um ano — até novembro de 2026 — a aplicação de um pacote de controles de exportação sobre terras raras e minerais críticos anunciado em outubro de 2025, que previa licenciamento obrigatório para equipamentos de separação, refino e sinterização usados na cadeia de terras raras. A trégua evitou uma escalada maior, mas não impediu novos atritos pontuais, como o das sanções à RBA em agosto.
O recado político
O momento da crise chama atenção: ela se desenrola três semanas antes da visita de Xi Jinping a Washington, agendada para 24 de setembro, primeira do tipo em anos. O Ministério das Relações Exteriores da China reafirmou publicamente o “compromisso com a manutenção das cadeias globais de abastecimento”, mas, na prática, fornecedores privados chineses preferem não arriscar remessas que possam ser lidas por Pequim como cooperação com a fiscalização americana, mesmo sem uma proibição formal em vigor.
Por que isso importa para empresas e consumidores
A China controla a maior parte do refino mundial de terras raras e de diversos minerais críticos, o que dá a Pequim uma alavanca de pressão em qualquer atrito comercial com os Estados Unidos. Qualquer sinal de aperto na oferta desses insumos tende a se refletir em custos mais altos e prazos mais longos para fabricantes de semicondutores, equipamentos de defesa, turbinas eólicas, veículos elétricos e eletrônicos em geral — indústrias que dependem de cadeias de suprimento globais e repassam parte desses custos ao preço final de componentes e produtos.
Relação com o Brasil
O Brasil não é grande importador direto de terras raras processadas da China, mas integra cadeias produtivas — como a de eletroeletrônicos, autopeças e equipamentos de energia renovável — que dependem de componentes fabricados com esses insumos em fábricas chinesas e asiáticas. Um encarecimento de chips e de peças eletrônicas por conta do aperto na oferta de matérias-primas críticas tende a chegar, com defasagem, aos preços de eletrônicos, veículos e equipamentos industriais vendidos no país. O Brasil também tem reservas próprias de terras raras, sobretudo em Minas Gerais e Goiás, e o episódio reforça o interesse estratégico, já discutido pelo governo federal, em desenvolver capacidade nacional de processamento desses minerais.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
O efeito para as duas economias é indireto, mas real: indústrias instaladas na região — como a metalmecânica e a de eletrodomésticos em Pernambuco (polo de Goiana) e fornecedores locais de componentes eletrônicos — podem sentir reflexos em prazos e custos de peças importadas caso o aperto na cadeia de terras raras se prolongue. Para o comércio varejista de eletrônicos em João Pessoa, Recife e Campina Grande, o principal risco é um repasse gradual de custos por parte dos fabricantes caso a tensão entre EUA e China não se resolva antes da visita de Xi a Washington.
Perspectivas
A visita de Xi Jinping a Washington, em 24 de setembro, é vista como o próximo ponto de inflexão: um encontro produtivo entre os dois presidentes pode destravar os embarques e reduzir a tensão, enquanto um resultado ríspido tende a prolongar a cautela dos fornecedores chineses e a manter pressionados os preços de materiais críticos pelo menos até novembro, quando vence a trégua original sobre controles de exportação.
Fontes
Reuters.

