A guerra comercial entre Estados Unidos e China voltou a redesenhar o mercado mundial de grãos em 2026, e o Brasil é o principal beneficiado. Dados da Administração-Geral das Aduanas da China, compilados pela imprensa especializada em agronegócio, mostram que as importações chinesas de soja brasileira saltaram 82,7% no primeiro bimestre do ano, para 6,56 milhões de toneladas, enquanto as compras de soja dos Estados Unidos no mesmo período caíram 83,7%.
O padrão se manteve ao longo do ano. Segundo a Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais), entre janeiro e maio a China absorveu cerca de 70% de toda a soja embarcada pelo Brasil. Em junho, o país asiático importou 13,55 milhões de toneladas de soja de todas as origens, recorde para o mês, com forte concentração no produto brasileiro. Os embarques brasileiros no primeiro semestre somaram 73,95 milhões de toneladas, acima do registrado um ano antes.
O que está por trás da mudança
Três fatores se combinam. O primeiro é a tarifa: no pacote de sobretaxas da gestão de Donald Trump e nas retaliações chinesas, a soja dos EUA passou a entrar na China com uma carga tributária adicional que a analistas estimam em torno de 34%, tornando-a mais cara que a concorrente sul-americana. O segundo é o câmbio: com o real desvalorizado — o dólar tem sido negociado na casa de R$ 5,15 —, a soja brasileira fica ainda mais competitiva em dólares. O terceiro é a oferta: a consultoria StoneX estima a safra brasileira 2025/26 em 178,9 milhões de toneladas, novo recorde, o que dá ao país volume para atender a demanda chinesa sem sobressaltos.
O deslocamento é tão acentuado que compradores chineses já reservaram antecipadamente mais de 9 milhões de toneladas da safra brasileira 2026/27, ainda em desenvolvimento. Do lado americano, a Federação do Bureau Agrícola (American Farm Bureau Federation) projeta que as exportações do agro dos EUA para a China cairão para cerca de US$ 9 bilhões em 2026, o menor patamar desde o início das tensões comerciais, em 2018. Um pedido da Casa Branca para que a China quadruplicasse suas compras de soja americana, elevando-as a 88 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, foi classificado por analistas como inviável diante do tamanho da própria produção dos EUA.
O canal de impacto sobre o Brasil
Para a economia brasileira, o efeito mais direto é sobre a balança comercial e a entrada de dólares. A soja e seus derivados (farelo e óleo) estão entre os principais itens da pauta de exportação do país, e um ano de vendas recordes para a China ajuda a sustentar o superávit comercial, a reforçar as reservas cambiais e a conter o dólar — o que, na ponta, alivia a pressão sobre a inflação de itens importados e sobre os juros. Também irriga a renda no campo, o faturamento de tradings, transportadoras, terminais portuários e a arrecadação de estados produtores.
Há, porém, um risco de concentração. Com a China respondendo por perto de 70% das vendas externas de soja, o Brasil fica mais exposto a qualquer mudança na política de compras de Pequim — seja por desaceleração da economia chinesa, seja por um eventual acordo entre EUA e China que redistribua os pedidos. Uma reversão brusca desse fluxo teria impacto imediato sobre preços e receita.
Relação com a Paraíba e Pernambuco
Paraíba e Pernambuco não são produtores relevantes de soja, mas participam da cadeia por outros elos. O Porto de Suape (PE) e o Porto de Cabedelo (PB) movimentam fertilizantes importados — insumo essencial para a produção de grãos — e derivados, e se beneficiam de um agronegócio nacional aquecido, que aumenta a demanda por esses produtos. A pecuária e a avicultura regionais, que consomem farelo de soja como ração, são afetadas pelo preço interno do grão: quando a exportação puxa a soja para cima em reais, o custo da proteína animal sobe para o produtor local — um efeito que tende a se transmitir, com defasagem, aos preços de carne e ovos no varejo dos dois estados. Trata-se de uma inferência sobre a transmissão de custos, já que os embarques em si se concentram nos portos do Sul e do Centro-Oeste.
Perspectivas
O cenário para o restante de 2026 é de manutenção do quadro: enquanto a soja americana estiver sobretaxada na China e o real seguir depreciado, o Brasil deve continuar como fornecedor dominante. O ponto de atenção no médio prazo é diplomático — qualquer trégua comercial entre Washington e Pequim, ou uma safra americana pressionando por espaço, pode alterar rapidamente a divisão do mercado.
Fontes: Administração-Geral das Aduanas da China (dados de importação, jan–jun/2026).

