Começou nesta quarta-feira (2) a 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, o mais antigo festival de cinema do mundo, que segue até 12 de setembro no Lido, a ilha-balneário da cidade italiana. É tradicionalmente a largada da temporada de premiações do cinema mundial, que se estende até o Oscar, no início do ano seguinte.
Clooney e Burstyn homenageados
A noite de abertura entregou o Leão de Ouro honorário pelo conjunto da obra ao ator, diretor e produtor norte-americano George Clooney. O diretor do festival, Alberto Barbera, justificou a escolha: segundo ele, Clooney “de certa forma sofre com a própria imagem” e “às vezes as pessoas esquecem que ele é um grande ator, um dos maiores do momento”. A atriz Ellen Burstyn, de 93 anos, nome de clássicos como “O Exorcista” e “Alice Não Mora Mais Aqui”, também recebe um Leão de Ouro de carreira nesta edição.
O filme de abertura
A sessão inaugural foi de “Ink”, novo longa do britânico Danny Boyle (“Quem Quer Ser um Milionário?”, “Trainspotting”). O filme reconstrói a aquisição do jornal popular The Sun pelo magnata australiano-americano Rupert Murdoch, em 1969 — episódio que deu início à construção de um dos maiores impérios de mídia do planeta e ajudou a moldar o jornalismo de tabloide no Reino Unido.
Uma competição marcada pela política
A seleção oficial deste ano, com 21 filmes disputando o Leão de Ouro, reflete tensões geopolíticas do momento. Entre os títulos citados pela imprensa internacional estão “Naza”, documentário sobre a guerra em Gaza; “Musk”, sobre o empresário Elon Musk; e “My Undesirable Friends — Part II: Exile”, sobre jornalistas russos independentes que cobrem a guerra na Ucrânia a partir do exílio. Há ainda filmes palestinos e um curta sobre a atuação da polícia de imigração dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis. O festival, disse Barbera, quer manter o foco nos “problemas contemporâneos” mais do que nos momentos de celebridade.
A sub-representação de diretoras
Um ponto de crítica repetido nesta edição é a presença de apenas um filme dirigido por uma mulher entre os 21 concorrentes ao prêmio principal. “É um grande problema, claro… há muito a fazer para dar às mulheres o lugar que elas merecem no cinema”, reconheceu o diretor do festival.
Por que Veneza importa além do tapete vermelho
Veneza deixou de ser apenas uma vitrine de arte para se tornar uma engrenagem central da indústria: nos últimos anos, filmes lançados no Lido — de “Nomadland” a “Pobres Criaturas” — saíram de lá diretamente para a disputa do Oscar. O festival também movimenta um mercado de compra e venda de direitos de distribuição e funciona como termômetro do apetite das plataformas de streaming por cinema autoral. Para a Itália, o evento é um dos maiores geradores de mídia espontânea e de fluxo turístico de alto padrão do ano.
Relação com o Brasil
O cinema brasileiro tem histórico recente de destaque em Veneza — foi de lá que “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, iniciou em 2024 a trajetória que culminou no Oscar de Melhor Filme Internacional. A presença de produções nacionais ou de coproduções com o Brasil na seleção do Lido costuma ampliar as chances desses títulos no circuito internacional de festivais e no streaming, além de reforçar a atração de coproduções estrangeiras para rodar no país. Para o público brasileiro, os filmes premiados ou badalados em Veneza tendem a chegar aos cinemas e às plataformas nos meses seguintes.
Perspectivas
O Leão de Ouro da 83ª edição será anunciado no encerramento, em 12 de setembro. Nas próximas duas semanas, o desempenho dos filmes com o público e a crítica no Lido deve começar a desenhar os favoritos da temporada de premiações — e a indicar quais produções ganharão distribuição global.
Fontes: Associated Press.

