A Paraíba atravessa o maior ciclo de construção hoteleira da sua história. O epicentro é João Pessoa, onde obras públicas de infraestrutura e empreendimentos privados avançam ao mesmo tempo, boa parte deles concentrada no Polo Turístico Cabo Branco — descrito pelo governo do estado como o maior complexo turístico planejado em execução no Brasil.
Polo Cabo Branco: projeto de 1987 que saiu do papel
O Polo ocupa 654 hectares entre a orla e a Mata Atlântica, na zona urbana de João Pessoa. Concebido ainda em 1987, na gestão do então governador Milton Cabral, só ganhou tração nos últimos anos. Hoje reúne cerca de R$ 3 bilhões em investimentos privados e 11 empreendimentos contratados, com potencial para adicionar em torno de 5 mil novos leitos à rede da Grande João Pessoa, que atualmente tem cerca de 14 mil. A espinha dorsal da área é o Boulevard dos Ipês, via de 700 metros de extensão por 33 de largura, com cerca de 20 mil metros quadrados de área construída de apoio a lojas, restaurantes e serviços.
Tauá Resort: o primeiro a operar
O primeiro empreendimento entregue no Polo foi o Tauá Resort João Pessoa. O grupo mineiro Tauá investiu mais de R$ 700 milhões na unidade, que tem cerca de 1.100 apartamentos e é apresentada como o maior resort do Brasil. O resort fez soft opening em abril de 2026, para familiares, amigos e convidados, e passou a receber hóspedes de forma regular a partir de julho. A operação estima em torno de 1,5 mil empregos diretos e nasceu com acordo comercial de distribuição junto à Azul Viagens, o que amarra parte da ocupação à malha aérea da companhia.
Capital estrangeiro no Centro Histórico
Fora do Polo, o movimento mais simbólico é a chegada do grupo português Vila Galé ao Centro Histórico de João Pessoa. A rede vai instalar um hotel cinco estrelas no prédio do antigo Colégio Diocesano Pio XII, que passará por revitalização, com investimento em torno de R$ 100 milhões e cerca de 80 quartos. A parceria foi formalizada em 2026, com assinatura em Lisboa durante a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL). É a aposta da rede em turismo urbano e de patrimônio, num centro histórico que vem recebendo recursos de restauro.
O estado também registrou o anuncio de outro complexo, com hotel e parque temático, estimado em cerca de R$ 500 milhões, segundo noticiado pela CNN Brasil — projeto ainda em fase inicial, sem cronograma consolidado.
Por que a Paraíba entrou no radar dos investidores
O apetite acompanha um movimento regional: o Nordeste concentra 22% dos projetos hoteleiros em desenvolvimento no Brasil. Dentro desse quadro, João Pessoa se beneficia de indicadores de ocupação altos e de uma agenda de eventos que o poder público tenta tornar permanente para reduzir a sazonalidade. Na virada do ano, a ocupação hoteleira na capital chegou a 100% no réveillon, com projeção em torno de 90% para janeiro e estimativa de gasto médio diário de R$ 700 por turista — o que, segundo a prefeitura, injetou cerca de R$ 623,7 milhões na economia local apenas em janeiro.
Impacto para empresas e trabalhadores
Para a cadeia local, o ciclo de obras significa demanda imediata por construção civil, mobiliário, serviços de engenharia e, na sequência, contratação em hotelaria, alimentação e transporte turístico. Para o pequeno empresário de bares, restaurantes, passeios e locação de veículos, a ampliação de leitos aumenta o fluxo potencial de hóspedes o ano todo, mas também eleva a concorrência por mão de obra qualificada — recepcionistas, camareiras, cozinheiros, guias — categoria que já aparece como gargalo em picos de temporada.
Há riscos. A entrada simultânea de milhares de leitos pode pressionar as diárias para baixo se a demanda não crescer no mesmo ritmo, e a dependência de acordos com companhias aéreas (caso do Tauá com a Azul) deixa a ocupação sensível a mudanças de malha. O desempenho dos próximos anos vai depender de o aeroporto Presidente Castro Pinto ampliar rotas e de a cidade consolidar de fato o calendário de eventos.
Relação com Pernambuco
O avanço paraibano ocorre em paralelo ao de Pernambuco, que também recebe novos hotéis e ampliou fortemente as conexões internacionais pelo aeroporto do Recife. Na prática, os dois destinos competem pelo mesmo turista do Sudeste e do exterior no litoral nordestino, mas também se complementam em roteiros que combinam João Pessoa, Recife e o litoral sul pernambucano. Para o Litoral Sul da Paraíba — Conde, Jacumã, Coqueirinho — o efeito esperado é de transbordamento de demanda a partir da capital, sobretudo em feriados prolongados.
Fontes
- CINEP (Companhia de Desenvolvimento da Paraíba) — “João Pessoa participa da inauguração do primeiro empreendimento do Polo Turístico Cabo Branco”, 07/04/2026.

