O Irã declarou neste sábado (22) que sua doutrina militar deixou de ser defensiva e passou a ser ofensiva, segundo o porta-voz do Exército iraniano, brigadeiro-general Mohammad Akraminia. Em entrevista à agência estatal IRNA, ele afirmou que a mudança ocorreu de forma gradual ao longo dos dois conflitos recentes do país com Estados Unidos e Israel, os quais autoridades iranianas descrevem internamente como a “guerra dos 12 dias” e a “guerra dos 40 dias”. O anúncio chega em meio a um impasse nas negociações sobre a reabertura plena do Estreito de Ormuz, rota por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo, e ajuda a manter os preços do barril pressionados para cima nas últimas semanas.
O que muda na doutrina
Segundo Akraminia, a postura do país era historicamente defensiva, mas passou a incorporar respostas mais rápidas e de maior alcance a qualquer ataque, além da disposição de agir preventivamente quando julgado necessário. Como exemplo de ação ofensiva já adotada, ele citou o ataque a uma base americana na Jordânia, realizado antes de os Estados Unidos entrarem formalmente na ofensiva de Israel contra o Irã, atribuindo a esse episódio danos relevantes a equipamentos, instalações e pessoal americanos. O porta-voz frisou que uma doutrina ofensiva não significa necessariamente operações preventivas constantes, mas sim a garantia de uma resposta imediata e potencialmente mais ampla do que a provocação original.
Um movimento que já vinha sendo sinalizado
A declaração de sábado não surge isolada. Ainda em meados de agosto, o vice-comandante político do Corpo da Guarda Revolucionária (IRGC), general Yadollah Javani, já havia afirmado publicamente que as ações do país permaneciam defensivas até então, mas poderiam assumir “caráter ofensivo” a qualquer momento. Dias antes, uma leva de nomeações de comandantes feita pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, também foi lida por analistas como parte da reorganização das Forças Armadas para um posicionamento mais assertivo no exterior, segundo apuração da agência Bloomberg. O pano de fundo é o conflito iniciado no fim de fevereiro deste ano, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma campanha militar conjunta contra instalações nucleares iranianas, seguida de trocas de mísseis e drones e de ataques a navios na região do Golfo.
Impacto nos mercados de petróleo
O Estreito de Ormuz, entre o Irã e a Península Arábica, segue tecnicamente aberto, mas o fluxo de petróleo pela via está reduzido: estimativas de mercado citadas pela CNBC no fim da semana passada apontam perda de cerca de 8 milhões de barris por dia frente à movimentação normal de aproximadamente 20 milhões de barris diários pela rota. As negociações entre Estados Unidos e Irã para ampliar a liberação do tráfego de navios avançaram e recuaram diversas vezes ao longo de agosto: um memorando assinado em meados de ano perdeu força depois de ataques a petroleiros, e o Irã condicionou a reabertura plena ao fim do que classifica como bloqueio naval americano à região. Como resultado dessa instabilidade, o petróleo tipo Brent chegou a ultrapassar US$ 90 o barril em agosto, depois de ter recuado para perto de US$ 78 em junho, quando um entendimento preliminar havia gerado otimismo de trégua.
Consequências para empresas e consumidores
Para empresas que dependem de transporte marítimo, combustíveis e insumos importados, a manutenção de um prêmio de risco geopolítico no petróleo significa custos logísticos mais altos e maior volatilidade de preços, já que seguradoras e armadores vêm precificando o risco de operar na região. Analistas ouvidos pela Al Jazeera e pela CNBC nas últimas semanas descrevem um mercado que ainda não abandonou a esperança de um acordo, mas que também não confia que um eventual entendimento seria duradouro — o que tende a limitar quanto os preços caem mesmo diante de sinais positivos pontuais.
Relação com o Brasil
O Brasil não depende do Estreito de Ormuz para seu abastecimento — o país é autossuficiente em petróleo bruto graças à produção do pré-sal —, mas não fica imune ao cenário. Como o preço de derivados no mercado interno acompanha, ainda que com defasagem, referências internacionais, uma cotação mais alta do Brent tende a pressionar o custo de diesel e combustíveis de aviação, com reflexo potencial sobre frete e logística doméstica. Trata-se de um efeito indireto e não de um impacto automático ou imediato, já que também depende de decisões de precificação da Petrobras e da política de estoques das distribuidoras.
O que esperar daqui para frente
Com o Irã condicionando a reabertura plena de Ormuz ao fim do bloqueio naval americano e Washington mantendo pressão econômica sobre Teerã — incluindo sanções adicionais anunciadas neste mês —, o cenário mais provável no curto prazo é de continuidade da instabilidade, sem um rompimento definitivo, mas também sem sinal claro de acordo. A doutrina ofensiva anunciada por Akraminia deve ser lida, segundo especialistas consultados pela imprensa internacional, como parte da postura de barganha do Irã nessas negociações, mais do que como anúncio de uma ofensiva iminente.
Fontes
Anadolu Ajansı (22/08/2026); Tempo.co (22/08/2026); Bloomberg (12/08/2026); CNBC (10/08, 17/08 e 21/08/2026); Al Jazeera (10/08 e 12/08/2026); PressTV (16/08/2026).

