Cultura & Fé
Neste domingo, Pedras de Fogo celebra uma data que atravessa gerações: os 50 anos do Coral Nossa Senhora da Conceição. Meio século depois de sua primeira missa cantada, o grupo segue como um dos pilares da vida religiosa e comunitária da cidade, e sua história começa muito antes das primeiras vozes ecoarem dentro da igreja.
Uma missão antes de um coral
Tudo começou com a chegada de Nicodemos Duarte a Pedras de Fogo, na década de 1970. Natural de Tubarão, no sul de Santa Catarina, onde nasceu em 28 de fevereiro de 1931, Nicodemos era um missionário por vocação. Depois de passar por Solânea e Itambé, chegou ao então à pequena cidade de Pedras de Fogo com um propósito claro: evangelizar através da música.
Naquela época, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição era assistida pela Paróquia Nossa Senhora Rainha dos Anjos, de São Miguel de Taipu, e o padre João Maria celebrava missas apenas quinzenalmente. Fora desses dias, o templo permanecia fechado a maior parte do tempo. Foi diante desse cenário que Nicodemos se colocou à disposição do pároco para ajudar a aproximar o povo da fé — e encontrou no canto o caminho mais eficaz para isso.
Por volta de 1974, uma das primeiras reuniões da futura associação aconteceu no antigo Comercial João Urluso, endereço onde funciona hoje a escola Dulcinete. O convite, feito de boca a boca, reuniu mais de 100 pessoas logo no primeiro encontro. E o critério para participar era simples: não havia critério. Sabia cantar? Era bem-vindo. Não sabia? Também. Bastava o desejo de servir.
A primeira missa e a formação de uma comunidade
Em 1º de agosto de 1976, o coral viveu seu momento fundador: mais de 90 vozes cantaram juntas pela primeira vez em uma missa, numa celebração marcada pela emoção. Poucos anos depois, por volta de 1979, o grupo já se organizava em naipes — sopranos, contraltos, tenores e baixos — e passou a buscar formação técnica e litúrgica mais estruturada.
A partir dali, o coral tornou-se presença constante em ordenações sacerdotais, festas de padroeiro e casamentos. Mas, mais do que música, o trabalho de Nicodemos se espalhou pela cidade: grupos de evangelização de rua, teatro, danças folclóricas, grupos de mães e de homens, e até uma rádio difusora que funcionava na Igreja Matriz e no Centro Comunitário São José, levando mensagens de fé diariamente. Nas antigas feiras folclóricas da cidade, a barraca do coral ficou conhecida por reunir multidões — uma das poucas que não vendia bebida alcoólica e, ainda assim, uma das mais concorridas.
Nicodemos Duarte morreu em 28 de julho de 1998, aos 67 anos, mas o projeto que ele plantou seguiu vivo através das gerações que vieram depois.
“Uma alegria muito grande dar continuidade a este legado”
Hoje à frente do coral, Ewerton Souza fala com emoção sobre o momento de celebrar meio século de história. Para ele, estar à frente do grupo neste marco de 50 anos é motivo de gratidão e responsabilidade:
“É uma alegria muito grande poder dar continuidade a este projeto que Nicodemos Duarte começou lá atrás, com tão pouco recurso, mas com uma fé enorme. Chegar aos 50 anos e ainda estar aqui, cantando, evangelizando, reunindo gente em torno de Deus através da música, é motivo de muita gratidão. A gente carrega essa história com a responsabilidade de manter viva a mesma missão que ele sonhou: que o coral seja sempre um espaço aberto, de fé e de comunidade, para todo mundo que quiser participar.”
“Nicodemos foi muito importante para a minha juventude”
Osvaldo Matos, um dos primeiros integrantes do coral e testemunha viva daqueles primeiros anos, também compartilhou sua lembrança do que aquele grupo representou em sua trajetória:
“O Coral e o Nicodemos foram muito importantes para a minha juventude. Foi lá que eu aprendi a servir, a estar junto com a comunidade, a colocar a fé em prática através do canto. Eram outros tempos, com muito menos recurso do que hoje, mas com muita vontade de fazer acontecer. Eu levo até hoje o que aprendi naquela época, e é muito bonito ver que, 50 anos depois, esse trabalho continua vivo e formando outras gerações.”
Uma semente que ainda dá frutos
Se hoje Pedras de Fogo tem uma comunidade viva em suas pastorais, movimentos e grupos de evangelização, é porque, décadas atrás, alguém teve a coragem de plantar essa semente. Nicodemos Duarte plantou; muitas mãos — entre elas as de Ewerton Souza e Osvaldo Matos — ajudaram a cultivar; e a comunidade de Pedras de Fogo segue colhendo os frutos a cada domingo em que o coral canta.
Neste Jubileu de Ouro, a celebração é, antes de tudo, um agradecimento: a Nicodemos Duarte e ao Padre João Maria, dois pilares da evangelização na cidade, e a todos que, ao longo de 50 anos, emprestaram sua voz a essa missão.
“A minha alma engrandece ao Senhor” (Lc 1,46), diz a Palavra. O coral faz parte da alma católica de Pedras de Fogo.
Jairo Alves









Fotos do arquivo de Ewerton Souza.

