A cena política paraibana ganhou, nesta segunda-feira (10), um capítulo que merece leitura além da mera disputa de vagas: uma mulher vetando outra mulher para a vice-governadoria. Cida Ramos, presidente estadual do PT, barrou o nome da tenente-coronel Viviane Vieira (PSB) na chapa do governador Lucas Ribeiro (PP), alegando resistência da militância petista ao perfil da militar. O episódio, à primeira vista um lance de bastidor entre siglas, escancara duas camadas que atravessam a política brasileira: o machismo estrutural que também se reproduz entre mulheres dentro de ambientes dominados por homens, e o preconceito enraizado contra fardados na esquerda.
Mulher barra mulher: o que isso revela
Não é novidade que a política brasileira continua sendo, em sua esmagadora maioria, um território masculino. Bancadas de homens decidem o que se discute, quando se discute e com quem se disputa. Nesse tabuleiro, seria ingênuo — e injusto — esperar que toda mulher automaticamente apoiasse outra mulher apenas pelo critério de gênero, ainda mais sendo as duas do mesmo grupo. A lógica partidária, os cálculos eleitorais e as disputas de poder não obedecem a solidariedade de gênero automática; obedecem a interesses de grupo, alianças e narrativas de campanha.
Mas o episódio de Cida Ramos vetando Viviane Vieira ainda assim expõe algo revelador: quando o ambiente é estruturalmente machista, até as próprias mulheres, para sobreviver e disputar espaço dentro dele, acabam replicando lógicas de exclusão. Não se trata de acusar Cida Ramos de machismo, sua resistência tem fundamento ideológico e programático, não pessoal. A disputa entre elas ganha holofote justamente pela raridade de mulheres ocupando, ao mesmo tempo, papéis de poder decisório em uma articulação de chapa majoritária.
O preconceito com a farda
O outro fio condutor do episódio é menos sutil: a resistência de setores da esquerda a uma candidata oriunda das Forças de Segurança. Segundo os argumentos atribuídos a Cida Ramos, seria difícil convencer a militância petista e da esquerda a se engajar numa chapa com vice militar — categoria profissional cuja maioria, segundo a leitura da dirigente, se identifica com o bolsonarismo.
O argumento tem lastro na realidade eleitoral recente, mas também esbarra em uma generalização perigosa: tratar toda uma corporação como bloco político monolítico. Viviane Vieira, em entrevista à rádio Arapuan FM, fez questão de descolar sua imagem do bolsonarismo, afirmando não se identificar com o campo político de Flávio Bolsonaro, ainda que sem cravar apoio à reeleição de Lula. A fala sugere justamente o contrário do estereótipo: uma oficial que tenta construir um espaço próprio, fora da polarização automática entre “farda igual bolsonarismo” e “esquerda igual antimilitarismo”.
O preconceito contra militares na política progressista não nasceu ontem, tem raízes na memória da ditadura, na desconfiança histórica da esquerda com as Forças Armadas e de Segurança, e foi reforçado nos últimos anos pela adesão maciça de policiais e militares ao bolsonarismo em pleitos recentes. Mas tratar cada fardado como adversário inconciliável, independentemente de seu discurso e trajetória individual, é também uma forma de preconceito, motivado por categoria profissional, não por posição política real.
Entre o cálculo e o consenso
Para além da dimensão simbólica, o episódio expõe a intrincada engenharia de alianças que cerca a pré-candidatura de Lucas Ribeiro. O veto de Cida Ramos não é um gesto isolado: soma-se à pressão da cúpula nacional do PT por um nome petista na chapa, sob ameaça de reavaliação da aliança estadual, e aos movimentos do senador Veneziano Vital (MDB) junto à direção nacional petista em Brasília, numa clara tentativa de reconfigurar o tabuleiro em seu favor.
Diante desse cenário, o entorno de Lucas Ribeiro agora corre contra o tempo para encontrar um nome que concilie o inconciliável: atender às exigências programáticas e políticas do PT sem repetir o desgaste de escolhas anteriores, nem entregar a vice a outra legenda em posição de força. A escolha de Viviane Vieira, pensada inicialmente como estratégia de ampliação de base entre eleitores mais conservadores e afeitos à segurança pública, esbarrou justamente no ponto sensível de qualquer aliança de frente ampla: o quanto se pode esticar o consenso sem rompê-lo.
O que fica
Resta ao público paraibano observar, nos próximas dias, se o próximo nome cogitado para a vice de Lucas Ribeiro conseguirá equilibrar o que Viviane Vieira não conseguiu: transitar entre os interesses de um PT resistente a farda e uma coalizão que precisa, ao mesmo tempo, seduzir eleitores fora da esquerda tradicional. Fica também a reflexão sobre como o poder, mesmo quando disputado por mulheres, segue moldado por regras que raramente foram escritas por elas, e sobre como o preconceito, seja de gênero ou de farda, continua funcionando como moeda de troca nos bastidores da política brasileira.

