Muito antes da chegada dos colonizadores portugueses, o Litoral Sul da Paraíba já era habitado por povos indígenas que moldaram a cultura, a economia e o próprio nome dos lugares que hoje conhecemos como Conde, Pitimbu, Alhandra e Caaporã. A presença indígena na região não é apenas um capítulo do passado: ela segue viva na culinária, na toponímia e na identidade de comunidades que resistem até os dias de hoje.
Os Tabajara, povo originário do Litoral Sul
A etnia Tabajara, pertencente ao tronco Tupi, é a principal referência indígena do Litoral Sul paraibano. Historicamente, o grupo ocupava boa parte dessa faixa litorânea e, ao contrário dos Potiguara — rivais históricos que dominavam o litoral norte —, os Tabajara eram descritos como um povo mais pacífico em suas relações com os colonizadores. Foi esse contato que possibilitou a fundação de aldeamentos que deram origem a povoados como Alhandra e Taquara, núcleos que, séculos depois, se transformariam nos municípios que conhecemos hoje.
Estima-se que, à época da colonização, os Tabajara somavam cerca de 5 mil pessoas na região. Hoje, a população segue presente principalmente em Conde, Pitimbu e Alhandra, além de bairros periféricos de João Pessoa, organizada em aldeias distribuídas por terras que remontam às antigas sesmarias de Jacoca e Aratagui.
Uma herança que está na mesa e na terra
A influência indígena na formação do Litoral Sul vai muito além da história dos aldeamentos. O manejo da terra e do mar praticado pelos povos originários — o cultivo da mandioca e do milho, a pesca artesanal e a coleta de frutas nativas — foi incorporado pelos colonizadores e permanece, até hoje, como base da culinária regional. A mandioca, cultivo típico dos Tabajara e de outros grupos Tupi, tornou-se um dos pilares da alimentação nordestina.
Essa herança também aparece na organização social das aldeias contemporâneas, lideradas pela figura do cacique, autoridade máxima nas decisões políticas locais, e em iniciativas mais recentes de fortalecimento identitário, como associações de mulheres, jovens e produtores rurais indígenas que atuam na Paraíba.
Resistência e visibilidade
Apesar da importância histórica, pesquisadores apontam que a presença indígena no litoral sul paraibano foi, por muito tempo, apagada ou diluída sob categorias como “pardo”, “caboclo” ou “moreno” — reflexo de um período em que o país buscava construir uma identidade nacional que tendia a invisibilizar os povos originários. Esse apagamento histórico ajuda a explicar por que, ainda hoje, muitos moradores da região desconhecem ou subestimam a ancestralidade indígena de suas próprias famílias.
Nas últimas décadas, no entanto, o cenário vem mudando. O aumento da autodeclaração indígena, o fortalecimento de associações comunitárias e o reconhecimento de terras tradicionais têm dado mais visibilidade aos Tabajara e a outros descendentes de povos originários do litoral sul.
Um legado que continua
Do nome das cidades aos hábitos alimentares, passando pela relação com a terra e o mar, os povos indígenas seguem presentes na identidade do Litoral Sul da Paraíba. Reconhecer essa herança é também uma forma de valorizar a história e a cultura de comunidades que, apesar de séculos de resistência, continuam parte viva da região.

