Na garagem e no terraço de uma casa, pertinho do Marco Zero de Itambé — o Cruzeiro que a professora Maria José, por conta própria, “consagrou” como o marco histórico da cidade durante uma pesquisa de campo com alunos —, a história do município ganhou, nesta segunda-feira (3), um museu por um dia. Não um museu de vitrines climatizadas ou curadoria institucional, mas um museu feito de acervo pessoal, fotografias guardadas com carinho, depoimentos colhidos ao longo de décadas e, sobretudo, do gesto simples de abrir a porta de casa para quem quisesse entrar.
Itambé completou 134 anos de emancipação política nesta data. E poucas formas de comemorar poderiam estar mais coladas à identidade do município do que a iniciativa da professora Maria José, docente efetiva da rede municipal de ensino, que decidiu, “essa semana”, como ela mesma conta, transformar um projeto pedagógico de décadas em exposição aberta ao público.
Um acervo de uma vida inteira
A ideia não nasceu do dia para a noite. Maria José já trabalhava com o tema há muito tempo dentro da escola municipal, reunindo em casa um acervo sobre Itambé que ela própria descreve com simplicidade: “gosto de guardar as coisas”. Foi esse hábito de décadas — de historiadora que também é colecionadora da própria terra — que, de repente, virou vontade de compartilhar. “De repente, deu vontade, essa semana, vou fazer uma exposição sobre Itambé”, contou.
A exposição aconteceu na garagem e no terraço da própria casa da professora. Vizinhos passaram, a família compareceu, registrou o momento, ajudou a arrumar. Colegas de profissão também estiveram presentes — Maria José fez questão de citar a Doutora Téo, Roberta e Malu entre as convidadas para dividir “esse momento único e maravilhoso”, como definiu. Uma pessoa, em especial, foi lembrada como apoio essencial ao longo de todo o dia: ficando por perto o tempo inteiro, ligando para outras pessoas, insistindo para que tudo fosse bem registrado. “Esse momento é importante”, teria dito essa amiga, resumo que também poderia valer como legenda para o dia inteiro.
Uma vida de pesquisa sobre o próprio chão
Se a exposição durou um dia, a pesquisa por trás dela atravessa 27 anos. Historiadora de formação, com graduação concluída em Goiana com estudo sobre o município, Maria José seguiu para o mestrado, defendido em Portugal, com dissertação sobre diversidade e racismo — um esforço, segundo ela, de investigar cientificamente algo que já era notório na vivência cotidiana. Já o doutorado, concluído em 2019, tratou de pedagogia de projetos, tese com a qual conquistou nota máxima justamente por sistematizar, em nível acadêmico, um método que já aplicava havia anos dentro da sala de aula.
Mas é na graduação, ainda em 1999, que está a raiz de muita coisa do que se viu na exposição de hoje: uma pesquisa sobre a origem e a evolução de Itambé. Da pesquisa de graduação ao livro que agora se aproxima, passaram-se 27 anos de escrita, depoimentos de moradores antigos e itambeenses colhidos ao longo do tempo, e um compromisso pessoal de transformar tudo isso em algo, nas palavras da própria autora, “que pode ficar de geração para geração”.
Um livro a caminho
O resultado desse processo tem data prevista: primeiro semestre do próximo ano, “se Deus quiser”. O título já está definido — Itambé: história, memória e identidade: uma viagem pelas raízes e tradições do município — e a proposta, segundo a autora, é ir além do que já havia produzido em 1999: um “livrão”, como definiu, com capa dura, fotos e memória, pensado para durar gerações.
A dedicação ao projeto tem custado, inclusive, uma pausa deliberada na sala de aula. Atualmente em licença-prêmio, Maria José usa o tempo livre para escrever e organizar o material, mesmo enfrentando, bem-humorada, os conselhos de quem sugere que ela esqueça a escola e a escrita: “eu não consigo até agora”, admite, entre risos. “Deixa eu lançar meu livro primeiro.”
Itambé em uma palavra, uma pessoa, um lugar
Ao fim da conversa, um convite simples resumiu o significado afetivo de tudo aquilo: se tivesse que escolher um lugar, uma pessoa e uma história que mais representam Itambé para ela, quais seriam? A resposta veio sem hesitar. O lugar: o Colégio Municipal. A pessoa: seu pai, Manuel Queiroz. A expressão cultural que mais representa o município: o folclore regional.
Passado o dia de exposição, a pergunta que fica é se a iniciativa terá continuidade — novas edições, talvez anuais, junto às celebrações de emancipação. A resposta da professora combina modéstia e disposição, na mesma medida: “se eu tiver, no próximo ano, com coragem e vontade de fazer, farei novamente”. Por ora, o que se viu foi uma casa comum, num dia comum, guardando dentro de si 134 anos de uma cidade inteira — e uma professora que, antes de qualquer instituição fazer isso por Itambé, decidiu fazer sozinha, na própria garagem.











Fotos: Jairo Alves

