Houve um tempo em que Ricardo Coutinho, João Azevêdo e Veneziano Vital do Rêgo caminhavam juntos, no mesmo grupo político, construindo consecutivas vitórias eleitorais na Paraíba. Houve também o tempo da ruptura: em 2019, quando João assumiu o Palácio da Redenção, o grupo se fraturou, e o que era aliança virou disputa, muitas vezes áspera, sempre pública. Nesta quinta-feira (30), na Granja do Wallacy, em João Pessoa, os três voltaram a dividir o mesmo palanque. Não por reconciliação pessoal, mas por convocação de um quarto nome, que nenhum dos três, ao que parece, está disposto a contrariar: Luiz Inácio Lula da Silva.
A convenção estadual do PT reuniu, além dos ex-aliados-agora-adversários, o governador Lucas Ribeiro e o pré-candidato ao Senado Nabor Wanderley — figura cuja aproximação recente com o presidente Lula tem, segundo relatos de bastidor, incomodado o entorno de Veneziano. Ou seja: nem entre os que hoje sorriem lado a lado a paz é assim tão sólida. O verniz de unidade cobre rachaduras que continuam lá, subterrâneas, aguardando a convenção terminar para voltarem à superfície.
“O palanque é do PT”
Questionado sobre o desconforto de dividir espaço com antigos desafetos, João Azevêdo foi direto: negou qualquer mal-estar e resumiu a lógica do encontro em uma frase que talvez seja a mais honesta do dia — “o palanque hoje é do PT, é do Brasil”. Não é pouca coisa perceber o que essa frase revela por omissão: não é o palanque de João, nem de Ricardo, nem de Veneziano. É de um projeto nacional que, momentaneamente, tem poder de convocação suficiente para colocar gregos e troianos rezando pela mesma cartilha.
E rezaram, de fato, em tom quase devocional. Lucas Ribeiro chamou Lula de “maior presidente da história do país”. Nabor Wanderley reafirmou compromisso público com o petista. Ricardo Coutinho, hoje pré-candidato a deputado federal pelo próprio PT, discursou ao lado de quem rompeu politicamente consigo há seis anos. A cena tem uma beleza cínica: o verbo que Homero usou para descrever a trégua entre gregos e troianos durante os jogos fúnebres de Heitor cabe bem aqui: adversários que se ajoelham diante de um interesse maior do que suas próprias rixas, ainda que só por um dia.
Unidade tática, não reconciliação
Vale a ressalva: nada nesse gesto sugere reconciliação política de fato entre os grupos de João e Nabor, Ricardo e Veneziano. O que a convenção do PT expôs foi uma unidade tática, construída em torno de um objetivo comum e imediato, reeleger Lula e, paralelamente (do lado institucional da sigla na Paraíba), sustentar a base governista de Lucas Ribeiro. Isso é bem diferente de dizer que as feridas de 2019 cicatrizaram. É mais provável que foram apenas anestesiadas por uma noite, suficientemente adormecidas para permitir a subida de personagens de grupos diferentes na mesma tábua, mas prontas para reabrir assim que o ato acabasse e colocar esses nomes de volta em lados opostos.
O contraponto que não pode faltar
Nem todo mundo lê essa cena com bons olhos. Para os adversários desse campo governista, a foto de unidade tem outro nome: oportunismo. A crítica mais comum, vinda de fora desse arco de alianças, é a de que a política paraibana segue funcionando por acomodação de interesses e não por convicção programática — hoje inimigos, amanhã aliados, sempre que a conta eleitoral fechar. Há também quem veja, na aproximação de Nabor com Lula, menos estratégia nacional e mais cálculo local: uma tentativa de neutralizar o desgaste natural de romper com Veneziano, usando o prestígio do presidente como escudo.
De um lado ou de outro, a cena de ontem escancarou algo que a política paraibana raramente admite tão às claras: rivalidades pessoais duram até o dia em que a matemática eleitoral manda o contrário. Gregos e troianos sabem disso — e sabem também que a trégua, como toda trégua, tem prazo de validade.
Jairo Alves
Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

