Levantamentos independentes ajudam a dar concretude ao discurso de força que a publicação de ontem tentou transmitir.
Não foi por acaso que o governador Lucas Ribeiro (PP) escolheu o mês em que completa 100 dias à frente do Palácio da Redenção para reunir mais de 100 prefeitos e prefeitas em Santa Terezinha. A coincidência numérica e simbólica, ainda que não tenha sido planejada como tal, resume bem o momento político do governador: um balanço de gestão que se converte, quase automaticamente, em capital eleitoral.
O balanço dos 100 dias
Lucas Ribeiro assumiu o governo da Paraíba em abril, após a renúncia de João Azevêdo para disputar uma vaga ao Senado. Ao completar seu primeiro marco de gestão, o governador apresentou um balanço concentrado em obras, ampliação de políticas públicas e investimentos distribuídos pelas 14 regiões geoadministrativas do estado, da saúde à segurança hídrica, passando por educação, habitação e desenvolvimento econômico. O governador destacou ainda o Orçamento Democrático Estadual como eixo de participação popular, ciclo que ouviu milhares de paraibanos na definição de prioridades.
Na segurança pública — tema que o próprio governador tem tratado como marca central da gestão — Lucas citou a convocação de mais de 490 policiais e bombeiros militares, a nova sede do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e a conclusão da unidade prisional de Gurinhém, além da assunção da gestão do Hospital de Clínicas, mantido com investimento mensal declarado de R$ 4 milhões. Em entrevista recente, o governador resumiu o tom que pretende dar à narrativa dos 100 dias: “pode olhar os meus 100 dias de governo. Quem fez gestão? Quem tomou as decisões?” – resposta a críticos que sugerem que decisões do governo estariam sob influência de outras lideranças do grupo político, como o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, tio de Lucas.
Os 100 prefeitos de Santa Terezinha
Foi nesse contexto que aconteceu o encontro em Santa Terezinha, organizado pelo prefeito local, Arimateia Camboim. Mais de 100 gestores municipais, ao lado de Lucas Ribeiro, do ex-governador e pré-candidato ao Senado João Azevêdo, do pré-candidato a senador Nabor Wanderley e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, reforçaram publicamente o discurso de continuidade: “é daqui pra frente, sempre”, resumiu o governador em suas redes sociais.
O evento não é um episódio isolado. Desde o início do ano, uma série de encontros regionais (em João Pessoa, em Brasília, e agora no Sertão) vem servindo para consolidar publicamente adesões que, em boa parte, já haviam sido fechadas nos bastidores. A escolha de Santa Terezinha, cidade da Região Metropolitana de Patos, também tem lógica territorial: reforça a base de Nabor Wanderley, ex-prefeito de Patos, e amplia a presença do grupo governista no Sertão paraibano, região historicamente disputada.
O que os números de bastidor mostram
Levantamentos independentes ajudam a dar concretude ao discurso de força que a publicação de ontem tentou transmitir. Segundo apuração do portal Polêmica Paraíba, atualizada em meados de julho, dos 223 municípios paraibanos, 182 prefeitos e prefeitas já declararam apoio à candidatura de Lucas Ribeiro ao governo – o equivalente a mais de 81% do total de gestores municipais do estado. Na sequência aparecem o senador Efraim Filho (União Brasil), com 22 prefeitos, e o ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena (MDB), com 14. Outros cinco municípios seguem sem posição definida.
Entre os prefeitos alinhados a Lucas está justamente Marcelo Rodrigues, de Alhandra, cuja vice, Zilda do Varejão, tem sido descrita como uma das lideranças femininas mais atuantes do Litoral Sul paraibano.
Números de prefeitos decidem eleição?
Nem todos os adversários dão o mesmo peso a esse tipo de contabilidade. Cícero Lucena, pré-candidato do MDB, já minimizou publicamente o significado do apoio de prefeitos, lembrando que, na disputa estadual de 1990, integrou uma chapa vitoriosa com o apoio de apenas nove entre os 171 municípios então existentes. Para o emedebista, “quem decide é o povo”, alianças municipais, na sua leitura, não substituem o voto direto do eleitor. Já o deputado estadual Fábio Ramalho relativizou o número de adesões da campanha governista, lembrando que a candidatura de Lucas Ribeiro em 2022 tinha bem menos apoio na mesma fase da disputa e, ainda assim, o resultado foi um dos mais apertados da história recente do estado.
Por outro lado, para quem defende a relevância desse indicador, o argumento é estrutural: prefeitos controlam máquinas administrativas municipais, redes de cabos eleitorais e, sobretudo, uma capilaridade de proximidade com o eleitor que nenhuma campanha estadual consegue reproduzir sozinha. Nessa leitura, transformar um balanço de gestão em vitrine de apoios, como fez o evento de Santa Terezinha, é menos sobre números e mais sobre a mensagem que eles carregam: a de um projeto que se apresenta como consolidado antes mesmo do início oficial da campanha.
Entre um marco simbólico (100 dias) e um indicador político concreto (mais de 180 prefeitos), o que fica claro é que a equipe de Lucas Ribeiro tem investido deliberadamente em transformar números de gestão em números de eleição, apostando que, na Paraíba, essa combinação ainda funciona.
Artigo de Jairo Alves
Editor do Seliga Litoral, formado em Jornalismo pela UFPB e mestrando em Jornalismo pelo PPJ da mesma Universidade.

