Ela entrou na Polícia Militar da Paraíba aos dezessete anos, ainda menina, em fevereiro de 2006. Passou duas décadas construindo uma biografia que qualquer campanha sonharia em ter.
Há nomes que chegam à política como quem chega de licença: devagar, testando o terreno, pedindo desculpas por ocupar espaço. E há nomes que chegam como quem já vinha marchando havia vinte anos: só que agora, em vez de fardado, de microfone na mão. É este o caso da tenente-coronel Viviane Vieira.
Ela entrou na Polícia Militar da Paraíba aos dezessete anos, ainda menina, em fevereiro de 2006. Passou duas décadas construindo uma biografia que qualquer campanha sonharia em ter: a primeira mulher a comandar um batalhão operacional da corporação, à frente do 21º BPM, em Cabedelo – bairro por bairro, ocorrência por ocorrência, até reduzir os crimes violentos letais intencionais na área sob seu comando. Em abril deste ano, tirou a farda pela última vez. Não para se aposentar do combate, mas para trocar de campo de batalha.
A política paraibana, sempre ávida por biografias que já vêm prontas, não demorou a notar. Em poucos meses, Viviane saiu de pré-candidata a deputada estadual pelo PSB para ser um dos nomes cotados (oficialmente indicada pela própria legenda, após conversas com o ex-governador João Azevêdo) para a vaga de vice na chapa que o governador Lucas Ribeiro deve encabeçar em 2026. Rapidez que diz menos sobre sorte e mais sobre o momento que o estado atravessa.
O problema que virou vitrine
Não é segredo para ninguém que a segurança pública se tornou, na Paraíba como no Brasil, o tema que atravessa toda conversa de bar, toda pesquisa de opinião, todo discurso de palanque. E quando um problema ocupa esse tamanho de espaço no imaginário coletivo, ele também abre vagas, vagas para quem pode falar sobre ele com autoridade de quem viveu, não de quem apenas leu o relatório. Viviane não precisa de assessoria para explicar o que é uma operação de risco: ela comandou dezenas. Essa é, hoje, sua principal moeda política.
Some-se a isso um dado que não escapa a nenhum estrategista: ela é mulher, mãe atípica, em uma disputa que, apesar de somar outros bons nomes femininos entre os cotados para a vaga, ainda carrega o peso histórico de uma política paraibana majoritariamente conduzida por homens. Colocar uma mulher, e uma mulher com currículo de comando, não de coadjuvância, na chapa é também uma resposta simbólica a um debate que a sociedade já não aceita mais adiar.
E há, ainda, a geografia. Viviane construiu sua reputação na Grande João Pessoa, justamente a região que serve de principal reduto eleitoral do adversário mais visível de Lucas Ribeiro, o ex-prefeito Cícero Lucena (MDB). Escolher um nome com sobrenome de guerra na terra do adversário é, no vocabulário não escrito da política, uma forma de marcar território antes mesmo de a disputa começar.
Uma mesa concorrida
Mas seria ingênuo – e um desserviço à complexidade do momento – descrever essa indicação como um caminho já pavimentado. A mesa está cheia, e cheia de nomes que também têm seus próprios argumentos.
Ao lado de Viviane, aparecem Rafaela Camaraense (PDT), ex-secretária de Meio Ambiente, cujo nome já reúne apoios declarados nos bastidores; Lígia Feliciano, do União Brasil, que não chega como estreante: foi vice-governadora do estado entre 2015 e 2023, ao lado de dois governadores diferentes, uma experiência de Palácio que nenhum outro postulante pode reivindicar; e Maísa Cartaxo, Republicanos, ex-primeira-dama de João Pessoa, cujo capital político vem de outra tradição, a da articulação institucional de longa data. Do lado masculino, o nome de maior peso é o de Adriano Galdino, presidente da Assembleia Legislativa, cargo que, por si, já é um lembrete de que a vaga de vice também pode ser lida não apenas como resposta a uma pauta ou a um símbolo.
Entre os nomes: o equilíbrio é quase didático, como se a própria disputa quisesse ilustrar que a vaga de vice, hoje, é o ponto onde se cruzam pelo menos três narrativas diferentes — a da segurança pública, a da representatividade feminina e a da engenharia de alianças partidárias. Viviane surfa bem nas duas primeiras. Só o tempo – e a mesa de negociação de Lucas Ribeiro – dirá se isso basta diante da terceira.
O que ainda não está escrito
A própria Viviane, em suas falas públicas, faz questão de devolver a decisão a quem, formalmente, cabe: ao governador. Não é apenas praxe protocolar — é também um sinal de que ela sabe ler o tabuleiro. Dizer “estamos à disposição” é ocupar espaço sem parecer que está disputando cadeira à força, um equilíbrio delicado que qualquer outsider da política precisa aprender rápido.
A convenção que deve definir a chapa governista está marcada para 5 de agosto. Até lá, resta observar se a força de um nome construído no cotidiano do enfrentamento ao crime será suficiente para vencer a força, igualmente real, de currículos como o de Lígia Feliciano ou o peso institucional de Adriano Galdino. O que já está claro é que Viviane deixou de ser uma coadjuvante da segurança pública paraibana para se tornar, em poucos meses, protagonista de uma das disputas mais assistidas da pré-campanha de 2026, e isso, por si só, já é uma vitória que nenhuma convenção partidária pode desfazer.
Por Jairo Alves @jairoalves.87
Jornalista formado pela UFPB, mestrando em Jornalismo pelo PPJ/UFPB, editor-chefe do Seliga Litoral.

